sexta-feira, 30 de março de 2012


você sonha que afoga patos de borracha em banheiras de motéis baratos e me dá bom dia com hálito de látex. me faz uma hidromassagem com a língua ainda seca pelo efeito da metade de um tarja preta. me conta que teu cachorro engoliu o cherokee do teu forte apache e que apontou um lápis só pra sentir o gosto do grafite. que queria mesmo era ver a anita ekberg no papel de emanuelle ou pendurando roupas no varal da tua vizinha cega. você confessa quase sussurrando teu tesão pelas poetas suicidas e me pergunta se, entre as sylvias, eu seria plath ou kristel. eu arrisco um verso tão tolo quanto não sou de missa, sou submissa, e facilito tua decisão. eu menti quando te disse que não queria aprender mais nada.

quinta-feira, 29 de março de 2012


tô mantendo as unhas bem compridas só pra embaralhar as letras no teclado e evitar escrever as palavras certas. o inconveniente é enfiar o dedo na goela pra vomitar minhas poucas certezas. arranha, incomoda, e pastilha de cepacol é o grande placebo dos alívios. não funciona, baby. fica aquele gosto estranho na boca e ele acaba tomando o lugar do efeito formicida das minhas últimas palavras. sim, eu gravei, mas você vai querer checar a veracidade de tudo porque o gravador detona meu timbre. dizem que a gente só é capaz de ouvir a própria voz quando fala com a cara grudada na quina das paredes do banheiro. eu já me aventurei no patético antes, mas isso me soa um pouco demais. aí você vai enumerar minhas ceninhas supostamente improvisadas enquanto faz um origami com os scripts que encontrar sob o colchão. você é bom em habilidades manuais e eu não preciso ser mais explícita que isso. eu sou a única pessoa que sofre lesão por esforços repetitivos por me manter tempo demais de joelhos pensando num drama bem barato que faça você ficar mais uma noite. só mais uma. só pra eu ter tempo de te fazer outra promessa e acabar com esse gosto estranho na boca.

quarta-feira, 28 de março de 2012


eu tô chamando de fenômeno paranormal mas poderia ser qualquer outro discurso. tipo aqueles proferidos sob caixotes de maçãs mas bem longe do paraíso. a coisa estranha é que não tem muita coisa passando pela minha cabeça hoje além daquele corujão em que meteram uma trava eletrônica no tornozelo do rutger hauer (tem um único ângulo dele que o deixa com a cara do kirk douglas, já reparou?). o resto eu poderia definir poeticamente como tópicos nebulosos ou filme iraniano, pra mim dá na mesma. eu nunca fui lá muito boa pra distinguir as coisas e muito menos pra me livrar delas. você me diz, esquece, enterra, mas até hoje eu não sei se sete palmos se medem com as mãos abertas ou fechadas. falando nisso - eu te avisei que não tem muita coisa passando pela minha cabeça hoje - numa outra vez deixaram o rutger numa cuba sinistra cheia d´água, só com a cabeça pra fora. não se faz isso com um replicante que viu coisas que ninguém acreditaria, momentos que ficarão perdidos no tempo. como lágrimas na chuva. a maldita chuva que me fez levar três horas pra te encontrar.

segunda-feira, 26 de março de 2012

você tenta fugir do jason mas está preso na porra da fantasia do arqui-inimigo do spectroman. o zíper está irreversivelmente emperrado e o contra-regra foi fazer uma passeata solitária em frente à fábrica de laticínios de cabra. acabou saindo no tapa com o chapeiro do pé sujo que usou um cutelo para dilacerar a faixa de interdição da vigilância sanitária. justo hoje que ao acordar você enumerou uma pá de prioridades naquela folha que sobrou da agenda do ano passado. ou do último ano bissexto. você tenta se lembrar da melhor piada do jason statham capotando um carro mas acaba levando um tiro no ombro da uzi clandestina do steven seagal. tem aquela harmônica do charles bronson tocando a oeste de algum lugar mas é impossível bater uma punheta pra claudia cardinale quando você está preso na porra da fantasia do arqui-inimigo do spectroman. aí tua carente endorfina te faz imitar o espacate do van damme e você até riria se não estivesse com uma cãibra filha da puta. é. a vida lá fora é muito besta. 

sexta-feira, 23 de março de 2012

hai-kai-xão

você morreu
era catalepsia
casei com outro
sua vadia

quinta-feira, 22 de março de 2012

porque tudo isso aqui tá tão eficiente quanto escarrar epitáfios em carpideiras. vai. olha em volta. olha pros malditos quarenta metros quadrados de convivência que você decorou com plágios baratos de andy warhol. fica ouvindo the unforgiven no modo shuffle pra ver se o james hetfield tem as manhas de mudar a letra. porque é isso que você espera. o tempo todo. a porra do tempo todo que os ancestrais do christopher walken carregaram no rabo naquele último filme que a gente assistiu. e você veio com aquele lance de feng shui e um hamster psicótico que se recusava a andar em círculos. sacou a ironia da coisa? provavelmente não. você se tornou imune aos infernos que plantou sobre tacos. palmas pra você. olha como elas ainda ecoam naquele resto de parede. stand and deliver or the devil he may take ya. eu sempre preferi whiskey in the jar. pra manter minha sanidade. sanidade. é o que eu tô alegando agora. é o que eu tô deixando nos cabides pra você guardar de lembrança. dá uma engomada de vez em quando. ouvi dizer que água e maizena são suficientes, você só precisa saber as proporções certas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

tem uma coisa na maneira que você sobe na escada pra escolher um filme do tarkovski e uma mensagem subliminar no seu cartão de visitas. tem sua insuportável mania de estalar beijos no meu ouvido enquanto seus cabelos fazem cócegas no meu ombro. tem aquela sua camisola de megastore que sacaneia seus joelhos e vai se desfazer na primeira lavagem. tem seu curso rápido de inglês e seus amigos que te pagam uma cerveja na happy hour que se estende demais. tem essa besteira de você querer que eu me excite com antropologia quando me pede pra ler seu horóscopo. tem seu salto preso na calçada e as moedas que você joga pro pedinte. tem sua falta de sentido no espelho retrovisor do meu carro e sua frieza ao alimentar o gato. tem sua medalha de ginástica olímpica e aquilo que você faz com as pernas. esqueça o resto.

segunda-feira, 19 de março de 2012

não era nada disso que eu tinha pra falar mas eu assisti aquele filme de terror, aquele com o carinha do harry potter. eu não preciso ir muito longe, é aquela coisa de um espírito querendo se vingar de um vilarejo inteiro e um mané - no caso o carinha do harry potter - se mete na parada e acaba resolvendo tudo. mas o problema, baby, é que tinha uma cena na qual o carinha do harry potter olha por uma janela embaçada e vê a impressão digital de uma mão. era óbvio que ele ia colocar a mão ali e era óbvio que ia aparecer uma cara de fantasma e um efeito sonoro dizendo assuste-se agora. pois é. e eu me assustei e gritei e fiquei tremendo por um tempo e até dei uma olhadela pra janela do meu quarto. você sabe que eu costumo receber visitas de mariposas e acabo tendo que chamar o porteiro pra escurraçá-las. mas também não aconteceu nada disso. não dessa vez. o que aconteceu é que você não tava aqui comigo e eu fiquei procurando tua mão, meio que tateando no escuro, meio que querendo me lembrar do dia que assistimos aquele terror tailandês que tinha um nome esquisito pacas pra espírito. a gente riu um bocado, não foi? no meio da madrugada eu te cutuquei e disse que tava com a impressão de ter um treco assombrado nos meus ombros. aí você fingiu que era o bill murray e ligou o aspirador e cantou who you gonna call e a gente tomou uma multa por causa do barulho. e agora tem 137 reais a menos na minha conta e eu não tô sabendo o que fazer com as impressões digitais que você apagou.

sexta-feira, 16 de março de 2012


hai-klown

o que restou de nós
virou piada antiga
um sujeito vestido de bozo
pedindo esmola na esquina.

quarta-feira, 14 de março de 2012

sentou-se na beira da cama e pegou um palito e foi tirando a sujeira das unhas, uma a uma, dos pés dela. gostava daquele esmalte perolado, dizia que ela tinha pés de ostra e pensou em patentear um talher exclusivo para abrí-las. tirou da estante o volume 7 da barsa e desgrudou as páginas e grifou uma frase com tinta nanquim e esperou secar. trocou a água do vaso de flores e a pastilha do repelente elétrico e dobrou a colcha ainda espetada com agulhas de crochê. ouviu o gato miar e o apito da chaleira, um logo após o outro ou foi o apito primeiro. limpou o suor das lentes dos óculos e arrancou uma pena do espanador e riu porque não sentia cócegas e porque ela também não. lembrou-se de quando ela disse que era só questão de treino mas que nem sempre funcionava. então fechou as cortinas e os olhos dela.

segunda-feira, 12 de março de 2012


eu não sei pra que serve cpf na nota fiscal e as palavras duras que guardei num estoque venceram. inclusive as com erros ortográficos que eu usava me beneficiando da fonética só pra te ludibriar com meu vocabulário pedante. eu tô tentando te mostrar que eu sou uma pessoa melhor e que as gotas halopáticas de bom senso que engulo com água tônica estão agora isentas de tarja preta. eu sei que algumas coisas ainda estão fora do lugar e eu me proponho aqui a fazer uma planilha no maldito excel pra estabelecer algumas prioridades. eu tenho essa mania de lavrar pactos em lençóis mas depois me descuido e os meto no tanque junto com as meias usadas e uma dose cavalar de sabão em pó. mas olha, todos os labirintos que eu tracei foram construídos com fórmica barata e são propositadamente frágeis. eu só quero ter aquela sensação de frio na barriga quando te ouvir destruindo as barreiras. eu quero que você chegue até mim e me diga que eu sou a criatura mítica mais fajuta que você já viu. daí eu vou te pedir pra ficar. mais uma vez eu vou te pedir pra ficar.  

terça-feira, 6 de março de 2012

identifiquei seis caras de cartunistas nos desenhos abstratos dos azulejos do banheiro. é verdade. por mais que você insista que minha visão se confunde no vapor. e eu ainda posso te garantir que o chuveiro está na posição verão e que eu perdi o medo de tomar choque. aliás eu ando tentando exterminar todos eles, meus medos. acho que esses seis caras têm me ajudado, pelo menos eles dão uma aliviada no quesito "infundado" quando deixam minha caricatura no espelho. no mesmo espelho que eu rabiscava corações quando estava frio demais ou quando tua ausência se transformava numa coisa doída pacas. eu não tenho lá muita firmeza nas mãos e a maioria deles não se fechava. se eu fosse poeta eu diria que ficavam dutos para sangrar a dor. mas eu não sou. é a maldita tremedeira mesmo. é pra essa aí que tô tentando encontrar razões fisiológicas só pra não te dizer que é medo de te perder de novo. mas se você ouvisse o que laerte acabou de dizer você daria muita risada. é, eu deixo ele usar meu banheiro.

sexta-feira, 2 de março de 2012


isso não é uma releitura de a paixão segundo gh. eu montei uma coroa de origami e coloquei na cabeça só pra simular a princesa isabel e abolir o re- de qualquer ação que eu venha a cometer. fiz até uma cerimônia com um pergaminho escrito em folhas a4. aí foi só subir num caixote e improvisar um megafone. uma dúzia de proclamas só pra justificar o negócio todo. e o negócio todo foi que eu esmaguei uma aranha com minhas havaianas brancas. entenda, é muita perna prum bicho só e meu instinto de destruição tava muito aguçado hoje. aí tudo vira ameaça, ainda mais essa parte do exagero. oito pernas, porra. e tá difícil manter a sanidade nesses dias de spike lee. o tal do the right thing ficou ressonando na minha cabeça. então você pode imaginar que quando eu abri a porta e dei de cara com aquilo só havia uma coisa a fazer. e fiz. eu sei que essa é a parte que te surpreende. eu nunca fui de tomar atitudes. tô até pensando em manter a coroa na minha cabeça por mais alguns minutos. pelo menos até você chegar. claro que eu vou florear a história toda, vou dar uns toques de filme de guerra e te confundir para que você tenha dúvidas quanto a de qual lado deveria ter ficado. mesmo que seja eu o ser vivo estancado na sua frente com um sorriso besta treinado à exaustão. o melhor de tudo é que tem um produto aqui que eu nunca soube pra que servia. mas, acredite, é eficiente pacas para eliminar restos de aracnídeos.