
Às 21:00
Texto do Paulo sobre a peça
Texto do Paulo sobre a peça
Desde que a peça Efeito Urtigão estreou, isso já tem alguns anos, eu nunca escrevi nada. Muitos já escreveram sobre o espetáculo. O que eu enxergo de ponto de vista da interpretação do texto, quando no palco, é uma devastadora solidão dos dois personagens. Há evidentemente a solidão do autoexílio, do isolamento consentido e da decisão pessoal do jornalista Marcos Pereira (Mário Bortolotto). Essa é uma solidão que aos poucos vai se tornando ultrauterina e ele a preserva. Ele a preserva não acreditando em nada nem em ninguém. Nem na afetividade da amizade, tampouco no amor. Questiona a dignidade e a ética de sua profissão. Niilismo puro? Não sei. Talvez. Se isto significa a redução de tudo a nada, sim, então é niilismo. Mas será que isso realmente acontece? Marcos Pereira não se rende ao jornalismo de redação politicamente correta. Não aceita entregar seu talento e seu sonho de escritor aos hipócritas que vendem e consomem notícia. Inconformado, se afunda em álcool e brigas de bares como se procurasse um fim. Um suicida incompetente que parte para o autoexílio dentro de seu próprio mundo. Mas há também a solidão daqueles que gostariam de fazer parte do sistema mas não conseguem e, sufocados por essa ordem de ideias estabelecidas, tornam-se medíocres, indo pouco a pouco, lentamente, gradativamente, vivendo à margem dessa engrenagem. A esses, falta a coragem de romper profundamente com o código de uma sociedade fundada e mantida sob a égide de que "só sobrevive aquele que se submete". A estes só lhes restam vagar na zona tormento do ostracismo. Só que estes não optaram pelo isolamento. São isolados. Esse é o isolamento de Emerson (Paulo de Tharso).






