quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

quando encontrei a doublé da Estrela
enquanto as portas do elevador se abriam
e eu estava saindo
enquanto ela estava entrando
às 4 da manhã
e eu vi que ela estava radicalmente chapada
perguntei pra ela de quê
ela disse 6 valium e vinho branco
porque este era o nosso último dia de filmagem
então ela pensou em celebrar com alguém da equipe
e se divertir
já que esta era sua cidade natal
e ela ia ficar bem aqui
enquanto íamos embora
e a agonia de ser apenas uma doublé local
deixada pra trás
numa cidade da qual ela adoraria saltar fora
estava realmente
lhe baixando o astral
e subitamente isso me fez ficar re-envergonhado
de ser um ator num filme
e tudo mais
e provocar tais ilusões estúpidas
então levei-a para o meu quarto
sem desejar seu corpo
nem nada
e ela ficou desesperadamente desapontada
tentou se atirar da minha janela
eu disse olhe, não vale a pena
é só um filme idiota
ela disse não tão idiota quanto a vida

1/11/81 seattle, washington

2 comentários:

Lalo Arias disse...

No final, a vida é só a droga de um filme idiota. Mas ainda bem que existe um Shepard.
Beijão, Adriana.

Adriana Brunstein disse...

Sorte de quem não percebe a idiotice toda da coisa. Pra gente fica o Shepard mesmo!
Beijo grande, Lalo!