quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A RAIVA - Mário Bortolotto

a raiva é implacável. me arrancou da cama e me jogou contra a parede. me fez rolar escada abaixo e me atirou rosas, granadas e carrinhos de bebê. a raiva me quer na rua, por isso me fez ouvir torch songs nos bares prediletos e tocou fogo na minha casa. a raiva esticou minha perna e me fez pressionar o acelerador. me fez derrubar semáforos e me jogou sobre um leito de hospital. a raiva me internou e ocultou meus diagnósticos. a raiva matou meu melhor amigo numa igreja às 6 da tarde num sábado de sol, a raiva tava de collant preto com uma Uzi numa mão e arroz na outra. a raiva é irônica e destrincha perus na noite de natal. a raiva redigiu meu epitáfio com uma frase de efeito. a raiva é cuidadosa. por isso me jogou na cadeia, me espancou e me fez confessar a cor das cortinas da casa dela. a raiva sabe como fazer as coisas. me serviu ópio e haxixe e disse que estava tudo bem. a raiva toca notas dissonantes e anda sempre de preto. a raiva me chamou de Bob Sands e depois gargalhou sadicamente. assim ela é. a raiva me fez dormir em pensões escrotas. a raiva respira pela boca e anda pelo corredor enquanto os anjos dormem. a raiva sabe o momento certo de te apertar o pescoço. a raiva é paciente e sincera. a raiva ri da minha cara. a raiva faz negócios com mercadores europeus. a raiva importa armas químicas e anda com cachorros felpudos nas mesmas calçadas que você. a raiva jogou boliche com meu amigo Charles, ela disse a ele que a diet coke é o sêmem do mal. a raiva é histérica e transforma banalidades em manchetes internacionais. a raiva me bateu com uma Magnum 357 no rosto. a raiva me quer vivo, por enquanto. a raiva decide o teu destino. a raiva escondeu os preservativos. a raiva fez um pacto de sangue com os burocratas das mesas envernizadas. a raiva mistura água com vinho e não quer os meninos nas portas das vernissages. a raiva não tem sexo. a raiva dorme sozinha e lê suplementos dominicais. a raiva perdeu o trem e ficou por aqui. a raiva é um espectro sobre colchoados controlando nossas vidas pelos aparelhos de tv. a raiva anda em sedãs vermelhos e recebe os caras pela porta dos fundos. a raiva me serviu leite e maionese e disse que era pro meu bem. a raiva é cheia de subterfúgios. a raiva me cortou a face com lâmina de barbear. a raiva fez a imagem se formar antes da minha retina. a raiva escreve da direita pra esquerda e de cima pra baixo e fala em cinco idiomas. a raiva dança sons africanos. a raiva vomitou no meu prato e quebrou os joelhos da minha mãe. a raiva tomou uma overdose e não morreu. a raiva é imortal. a raiva confundiu as teclas da minha máquina de escrever. a raiva me fez mendigar um litro de vinho no coração da cidade. a raiva corroeu meu fígado. a raiva fez meus amigos se voltarem contra mim. a raiva se vestiu de púrpura. a raiva é um vírus mortal. a raiva anda de cadeira de rodas. a raiva me abraçou e me beijou na boca. eu acreditei nas suas boas intenções. a raiva me levou pra cama e me entupiu de frisium. a raiva carrega ordens judiciais no bolso do paletó. raiva faz tudo em nome da lei. a raiva é onipotente e onipresente. a raiva sabe onde me escondo. a raiva estuprou minha garota numa banheira e depois a esfaqueou repetidas vezes. a raiva tem olhos vermelhos. a raiva tomou conta de mim. eu estou a caminho. é melhor limpar a área.

2 comentários:

Lalo Arias disse...

Texto do Marião, né Adriana? Não precisava falar muito, mas lá vai: que raiva eu sinto de mim mesmo por não escrever tão bem assim.
Beijão.

Adriana Brunstein disse...

é, ele tem essa mania. um beijão!