sábado, 4 de setembro de 2010



- Oi, princesa, será que você pode me ajudar?
- Se for dinheiro eu não tenho, só estou passeando com meu cachorro.
- Nossa, você parece aquela cantora estrangeira, a Jane Jopla (sic).
- É, já me falaram.
- Tchau, minha linda. Sou seu fã.
- Tá, tchau.

Oh, lord, I just want my Mercedes...

terça-feira, 31 de agosto de 2010


- Sei que você fez os seus castelos...
- Erasmo?
- Sim?
- Na boa, dá pra você não cantar isso agora?
- Não posso evitar. E sonhou ser salva do dragão...
- Por favor.
- Desilusão, meu bem, quando acordou estava sem ninguém...
- Olha, acordar pra mim já é uma coisa bem difícil.
- Sozinha no silêncio do seu quarto...
- É bem por aí.
- Procura a espada do seu salvador...
- Nem Dali.
- Que no sonho se desespera...
- Ando tendo pesadelos.
- Jamais vai poder livrar você da fera...
- Eu vou aprender a rezar. Prometo.
- Da solidão...
- Eu rezo em hebraico se você quiser!
- Me dê a mão...
- Vai me levar pra onde?
- Filosofia é poesia é o que dizia minha vó...
- Sem ditados, vai.
- Antes mal acompanhada do que só...
- Você não está nem um pouco preocupado com o que eu preciso.
- Você precisa de um homem pra chamar de seu...
- Pretensão sua.
- Mesmo que esse homem...
- Vai desaparecer bem agora? Eu ainda não terminei. Você ainda não terminou. E aquela coisa de secar meu pranto? Volta, vai. Canta aquela que diz que eu sou sua superstar...

O mundo anda um lugarzinho bem estranho. E o além se limita a avisar que as definições de vírus foram atualizadas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da série "Por que eu ainda escrevo se alguém o faz melhor e eu posso tungar dos amigos?"

O Divisor - Edwin Morgan

Continuo pensando em você – o que é ridículo.
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
impediria meu lápis sobre o papel.
O som estava ligado; você pediu pelos Stones;
conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.
As cortinas cerradas guardam uma noite selvagem.
Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.
Não há razão para isto, nenhuma.
Você diria que não posso ser o que não sou,
mesmo que não possa estar onde estou.
Onde isso nos leva? O que podemos fazer?
O silêncio após Jagger foi como uma capa
que eu teria jogado sobre você – havia apenas
o vento, e o relógio batia enquanto você bebia,
agarrando a caneca verde entre as mãos.
Não olhe para cima assim de repente!
Como é duro não olhar você.
Chegamos ao ponto de não falar
e não se preocupar, e aquilo
foi quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou sobre o cotovelo no carpete
não senti nada além de uma punhalada
de dor me dizendo o que era,
e não posso dizer para você, nem uma palavra.

terça-feira, 24 de agosto de 2010



ESCRITÓRIO.INT.DIA

Sol. Calor. O gato estirado na mesa. Branco. Dor de garganta. Dor. Desejo de estar no ano passado. Abolindo pontos de exclamação e abusando de reticências. De gerúndios. Conto os cabelos brancos. Tenho quase quarenta. Anos. Desejo de voltar ao ano passado. O telefone toca e em off alguém pede uma doação. Eu tenho muito pouco, explico o que já perdi. Em off o alguém desliga. Sinal de ocupado e nó na garganta. Penso em Linda Lovelace. Que tudo é biodegradável. Menos o domingo. Desejo de desaparecer no ano passado.

FADE OUT

sábado, 14 de agosto de 2010

Nos livros de McCarthy todo o movimento parece estar relacionado a passos, trotes de cavalos. Os diálogos são sucintos, às vezes impassíveis de uma compreensão imediata. No entanto, algo fica ressonando, ecoando, e quando você se dá conta já está totalmente tomado por um universo sem vírgulas, erguido entre silêncios. Foi sobre isso que falei na minha primeira aula do curso de roteiro. Universos. Já fiz de tudo para tentar compreendê-los. Um dos alunos deliciosamente duvidou que eu tivesse feito física na faculdade. E começamos a criar uma história, partindo de uma ilustração aparentemente estática de HQ. Estavam presentes 18 alunos (que eu já considero roteiristas, pois estava um frio de lascar), com idades de 17 a 60 anos, e de repente já havíamos criado um mundo para um protagonista que teve sua vida esmiuçada e invadida sem dó. E foi muito gratificante ter proporcionado a cada um sentir o gosto do incurável vício na ficção. Tomara que todos voltem, que outros apareçam, que comecem a enxergar o que não está exatamente visível, a ouvir o que cada boca na rua fala. Em duas horas semanais a gente vai fazer um estrago.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

E fico com essa impressão de que nunca fiz mal a alguém.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Oficina de roteiro para cinema

Biblioteca de São Paulo oferece
oficina de roteiro para cinema



Aulas gratuitas estimulam participantes a criarem situações para curta-metragem.
Os textos produzidos terão leitura dramática feita por atores.




A Biblioteca de São Paulo, espaço cultural do Governo de São Paulo administrado em parceria com a Poiesis - Organização Social de Cultura, promove a Oficina de roteiro cinematográfico nas terças-feiras 10, 17, 24 e 31 de agosto, às 19h. Adriana Brunstein é a responsável pelas atividades, que tem como objetivo fazer com que os alunos desenvolvam um roteiro de curta-metragem a partir de histórias próprias.



Dividida em duas partes, a oficina trabalhará primeiro com exercícios que garantam a fluidez de pensamento, estimulando a criatividade sem se apegar a amarras estéticas ou regras pré-estabelecidas. Com a história pronta, os alunos partirão para a segunda etapa, que é a visualização do filme. Desta vez, serão apresentadas as técnicas de roteiro - storyline, sinopse, escaleta e roteiro pronto – para permitir o conhecimento acerca de cortes de cena e opções de filmagem, entre outras atividades ligadas a concepção cinematográfica. Os roteiros escritos ganharão leitura dramática feita por atores. Análises de filmes clássicos e modernos, assim como indicações de leituras e utilização de programas específicos de confecção de roteiros no formato master scenes completam a programação do evento.



Escritora e roteirista, Adriana Brunstein é a dramaturga responsável pela peça Flores de Asfalto, encenada em 2008, durante o festival Satyrianas, e por roteiros de curtas-metragens como Olhos de Fuligem, apresentado no 13º Cultura Inglesa Festival. No mesmo ano, ganhou o prêmio HQMix de melhor roteirista nacional com o álbum Prontuário 666 – Os anos de cárcere de Zé do Caixão. Adriana também colaborou no roteiro de Encarnação do Demônio, filme de José Mojica Marins.



As edições do evento são gratuitas. Vale lembrar que a entrada na BSP é feita mediante apresentação das carteirinhas de visitante ou usuário, que podem ser solicitadas na recepção.



Serviço

Inscrições na recepção da Biblioteca de São Paulo a partir de 31 de julho. Podem ser feitas inclusive no dia 10, antes do início do curso.

Oficina de roteiro cinematográfico
Dias 10, 17, 24 e 31 de agosto, às 19h

Biblioteca de São Paulo
Parque da Juventude
Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Santana – São Paulo (SP)
Tel.: (11) 2089-0800

Site: www.bibliotecadesaopaulo.org.br
Blog: www.bibliotecadesaopaulo.blogspot.com
Twitter: www.twitter.com/spbiblioteca

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O cara disse que não ia demorar muito, mas pelo cano alto das botas que ele usava eu desconfiei. Três cafés e meio pão com mortadela. Uma cachaça de 1,50 e um prato de tremoços.
-Você paga.
Saquei uma nota de 20 da carteira.
-Então vai ser amanhã?
-Logo cedo.
-E como eu fico sabendo que tudo correu bem?
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
-Então assim que eu...
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
Levantei-me e ensaiei um até logo. Ele palitava os dentes. O sol acertou minha nuca em cheio. Era pouco mais de meio dia e eu pensava em que fim levou o Minister.

quinta-feira, 15 de julho de 2010


E aí as coisas vão rodando em espiral, para a direita ou para esquerda, dependendo de que América você está. Na Central as coisas devem descer em uma sem graça linha reta. Por alguns poucos reais você compra um protetor de ralo. Aquela redinha metálica que fica encrustada de arroz. Caso um grão de feijão cru seja esquecido no pequeno reservatório-peneira ele brota. Vale observar esse curioso fenômeno caso sua infância não tenha te dado como lição de casa fazer brotar pé de feijão numa bola de algodão. Para tirar essa pechincha do ralo você precisa de unhas ou de uma faquinha. Cuidado no manejamento, senão todo conteúdo pode vasar, pela direita ou pela esquerda, e fluir pelos canos da cidade. Macarrões são extremamente aderentes e, como lagartixas, deixam soltar um pedaço para que o resto se salve. Um triturador de lixo custa em torno de 1000 reais. Você pode pagar em até 5 vezes mas ele jamais te levará à galinha dos ovos de ouro.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pot Talk



Madrugada.
- Meu, o Mirisola é a única pessoa no mundo que ainda usa o yahoo!
- O que você acha de "com tua lã macia e berne"?
- Berne? O verme?
- Não! É um pano vermelho.
- Sério? Eu pensei em sapinho ou coisa do gênero.
- Era produzido na Irlanda.
- Mas as pessoas vão saber isso?
- Se não souberem pelo menos fica instigada a curiosidade da busca.
- Eu não contaria com isso, ainda penso em brotoejas.
- Tá bom, vai. Deixa eu trabalhar.
- Vamos por no google?
- O que?
- A berne.
- É o berne. Substantivo masculino.
- Tá, então vamos por o berne no google?
- O google é uma merda. Abre o Houaiss online aí.
- Boa! Pronto.
- Como é que você fala Houaiss?
- Eu falo RAUAIS. Mas tem gente que fala ROUAIS. Ou RUAIS.
- Sei lá. Eu não pronuncio o H. Qual a origem desse nome?
- Bom, se ele fez um dicionário de português deve ser portuguesa, né?
- !!!!
- Ah! Coloca ele nele mesmo!
- O quê?
- Coloca Houaiss no Houaiss.
- Tá falando sério?
- Claro. Ele vai dar origem, etimologia, data, aquela coisa toda.
- Se eu colocar você fica quieta?
- Fico.
- Então tá. Coloquei.

A palavra houaiss não foi encontrada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Vida na província

Chegando no museu você vira à esquerda. Segue reto. Passa por patriotas, princesas Isabeis, Marias Loucas e alguns desconhecidos Xavieres. Daí você cai na Cisplatina. Tá quase chegando. Quando chove fica tudo cheio de poça. De madrugada fica tudo vazio e os únicos sons vêm dos rojões de Heliópolis. É cheio de casinhas e algumas portas ficam entreabertas para que alienígenas como eu sejam observados. Tem uma comidinha boa na esquina e o pôr-do-sol é bacana.
-Você é moradora nova?
-Não, estou na casa do meu pai.
-Ah, aquele senhor do 163?
-Não, não. Ele é do 182.
-Que bom. Você soube que a porta da garagem caiu na cabeça dele?
-Do meu pai?
-Não. Do Seu Assad do 163. Levou quinze pontos.
A porta da garagem só fica aberta por 13 segundos e não tem sensor. O Seu Assad não deveria tentar memorizar o hino nacional debaixo dela.

terça-feira, 30 de março de 2010

Darwin 3

Pelo menos umas três pessoas blogaram sobre pássaros hoje. E como os urubus que moram no topo do prédio aqui em frente estão um tanto inquietos, resolvi registrar também os pterodáctilos evoluídos e jogar fora os travesseiros de pena de ganso.

quinta-feira, 25 de março de 2010



Sempre que eu estou longe do meu celular eu acho que ele está tocando. Aí eu saio correndo. Mas ele não tocou. Ele nunca toca. É que a obra aqui na frente faz muito barulho, tem uma sirene pro almoço. Eu sempre acho que você vai ligar enquanto aqueles caras abrem suas marmitas amassadas e chamam de mistura o que vem ao lado do arroz com feijão. Eu mudei o toque do celular, porque o que estava antes não dava pra ouvir do chuveiro. Vai ver era porque não tocava mesmo. Eu nunca entendo direito as coisas e achei que você ia ligar pra me explicar pelo menos porque... A chuva está forte hoje, e dizem que isso atrapalha o sinal. Algumas pessoas foram soterradas num bairro distante. E se você ligasse, elas também não ouviriam. Uma delas nunca acreditou que o homem pisou na lua. Jurava que foi armação do Nicho. Era assim que ela chamava o Nixon. Nicho. Como aquele seu apelido que eu nunca acertei.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A vida que fica em PB.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quando eu parei de encaixotar coisas estava passando O dia em que a Terra parou na TV. Com o parado Keanu Reeves no papel de um inexpressivo alienígena. O problema é que ele salvou o planeta e amanhã eu tenho que recomeçar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



As olimpíadas de inverno de Vancouver no Brasil foram canceladas devido à virada do tempo. Isso significa que eu não posso mais utilizar o avançado processo de derretimento cerebral como desculpa para mantê-lo inativo. Vou tentar pôr a culpa no Fidel.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Olimpíadas de inverno de Vancouver


3º lugar em derretimento de Pentium.
Menção honrosa em suadouro involuntário.
Próxima modalidade: derretimento de cérebro.
Vou levar ouro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Alguém devia parar esse calor porque os ventiladores estão esgotados.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Foi o que aconteceu por aqui ontem. Breu. Cinco horas após a tempestade a luz se foi. E sempre que isso acontece, o povo do prédio em frente, que nunca sofre apagão, aparece nas janelas para rir secretamente de nossas velas.