quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Você coloca no DVD Player A Tree Grows in Brooklyn, do Elia Kazan, e é presenteada com um show de uma cantorazinha pop australiana que fica repetindo nananananana. Então você o coloca na pilha onde descansam filmes com legenda apenas em chinês e outros que travam no primeiro plot point. Por sorte você tem outros do Kazan e leva de brinde o Gregory Peck que se passa por judeu por oito semanas para escrever uma matéria sobre antissemitismo. Você adormece logo após o The End e acorda com o telefone. Você me mandou um torpedo com um asterisco? Além do meu hotmail, que eu já tentei eliminar de todas as formas possíveis, estar espalhando vírus, meu celular anda espalhando asteriscos. E eu me olho no espelho e tomo um susto porque estou, legalmente, loira demais. E agora pra feira. Avante. É isso, mulher!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A gente se mete a escrever porque não sabe lutar boxe nem tem colhões para isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo tipo não há outro caminho, porque todos os feios escrevem ou assassinam e a gente não é capaz de matar nem uma mosca, porque escrever dá importância, porque para chamarem alguém de escritor não é preciso escrever bem, mas para chamarem de filho-da-puta não importa se sua mãe é uma santa, porque tem medo de ficar à deriva sem fazer nada, porque não pode beber toda noite, porque ama a Deus mas odeia as sociedades sem fins lucrativos, porque não tem namorada, porque não há emoções mas insultos, porque na sua casa não tem televisão e o rádio quebrou, porque a mulher do vizinho é gostosa, porque tem medo de ficar careca e por isso evita os espelhos. A gente se mete a escrever porque não se atreve a assaltar um supermercado, porque ama a mulher e ela é namorada do garoto esperto da rua, porque não há revistas pornográficas suficientes, porque quer fazer alguma coisa além de cagar e se masturbar, porque não é o garoto esperto da rua nem o garoto forte nem o engraçado, porque é o garoto nada, porque não vale um tostão furado, porque apanha lá fora, porque sua mãe grita o tempo todo, porque não há ilusões nem luz no fim do túnel, porque sua mãe grita o tempo todo, porque sua mente voa baixo e nunca será outro Cioran, porque não tem coragem para saltar, porque não quer a esposa feia que merece, porque tem medo de morrer sem ter comido um belo cuzinho, porque não tem pai, amigos, nem fortuna, porque não tem o jeito de cuspir do Clint Eastwood, porque se paralisa entre uma e outra intenção, porque era uma vez o amor mas eu tive que matá-lo.

Efraim Medina Reyes 

(N.E.: a gente se mete a escrever porque é a cara do Paulo Ricardo e não suporta isso)


Tungado do Carcarah, com exceção da infame nota do editor, que é minha.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Se você realmente me quer, vai ter que vir até mim.
Ele vai.
The End.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pra começar a semana. Mazel Tov!

domingo, 7 de novembro de 2010

O filme é Brilho eterno de uma mente sem lembranças. A cena é a seguinte, o personagem do Mark Ruffalo estaciona seu furgão e desce.
-Esse Mark Ruffalo é meu sonho de consumo.
-Ah, eu também me amarro num furgão, mas acho o Smart bem mais prático.
E ainda faltam 499 filmes...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

 Ser solidário é oferecer o pescoço ao sacrifício.  Se for o caso, contrariar os próprios interesses em favor do injustiçado. A mesma lógica que funciona para quem dá sem esperar algo em troca – por desapego. E mais, sem esperar reconhecimento e/ou retribuição: uma vez que a solidariedade é mais do que um gesto, pois se trata de doação. E a doação não aufere pesos nem medidas: mesmo porque o injustiçado pode ser um canalha e a justiça pode se revelar uma injustiça cabeluda. 
Tem mais. Não julgar sob hipótese alguma. Sobretudo aquele que é incapaz de agir da mesma forma que você (porque existe a grande possibilidade de que você também esteja errado ...) portanto, ser solidário é encarar o cuspe como se fosse o beijo e vice-versa. A partir daqui, em tese, subiríamos um degrau. Vamos falar de compaixão. Que nasce da solidariedade gratuita: o tipo de sentimento que jamais ameaça ou condena, apesar de todos os pesares. Algo que se compartilha de igual para igual, nem de cima para baixo nem de baixo para cima. Daí brota o perdão, quase que despercebido. Nem precisa ser nomeado. 

Marcelo Mirisola

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

-Então, você já está na idade da loba, já passou por todo tipo de relacionamento e agora que tá aí, toda apaixonada por aquele cara, tem agido como adolescente. Você não pode esperar um pedido de casamento por conta de algumas coisinhas que você fez com a presunção de tornar óbvia a sua intenção. Não é assim, ele pode não ter percebido nada. E, além do mais, você não é tão óbvia quanto pensa. Tó, leia esse livro.
-Ai, autoajuda?
-Dri...
-E se ele fizer parte dos homens que correm das lobas?
-Dri...
-Tá bom, tá bom, eu leio.

domingo, 31 de outubro de 2010

-Um dia aí, à noite, eu estava com insônia e comecei a gargalhar sozinho.
-Por quê, pai?
-Uma piada que eu inventei.
-Que piada?
-Então...esqueci.
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-Eu sempre me lembro, no banho, daquele seu post sobre como matar moscas de banheiro.
-É um dos meus prediletos.
-Mas você não tá gastando muito shampoo com isso?
-Não, eu uso a espuma que se forma.
-Ah tá... Será que já existe patente pra Shamposca?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vai ficar tudo bem, baixinho.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010


Bettie Page?
Ou Pamela Anderson?

E ele queria usar palavras como sobrolho, vicissitude, tergiversar, queria contar que esteve na Antuérpia e pegou um trem, que tragava fumaça de charutos e caçava alces numa savana qualquer. Queria dizer que admirava Egon Schiele e que carregava no bolso a herança de um tio distante. Ele queria falar das alergias que teve na infância e de um matadouro de porcos que funcionava atrás do armazém. Queria dizer que tinha um problema no coração e que às vezes o ar lhe faltava. Que adormecia em filmes longos e que não tivera filhos. Que eram poucos os sonhos dos quais se lembrava. Que desconfiava que não sonharia mais.

sábado, 23 de outubro de 2010


Havia um boticário na Rua do Boticário. E ele deveria continuar lá porque o estado de letargia no qual saímos, Mimi, Cocó e Cocotinha, daquele balcão daquela feijoada daquele boteco daquele garçom que rabisca contas à lápis naquele balcão é grave. Grave a ponto da Galeria Olido parecer estar no Texas. Grave a ponto de pegarmos um elevador estilo anos 20 para subir um andar e acabar com o estoque de água daquele estúdio de tatuagem e jogar o copinho num amável lixo da marca Pork´s. Mas gravidade é coisa da cabeça do Newton, ou na cabeça do Newton. E como grávitons nunca foram detectados e eu nunca entendi o espaço curvo de Einstein, que venha o próximo sábado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010


Bem alto
porque, baby
We'll get wild, wild, wild
E assim foi. Passaram-se anos que ele marcava em cartas de baralho. E se sentava em frente à lareira e tomava um conhaque e pensava em amendoeiras. E se levantava para atiçar o fogo quando esse fraquejava. E tornava a se sentar e beber e pensar que sentia falta dela. E pegou a dama de copas com a data de 1995 e a jogou no fogo. E a viu queimar até virar cinza. E voltou a pensar em amendoeiras.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ela levantou o lençol e disse não é ele. Eu perguntei tem certeza? Ela respondeu que sim, que haviam se conhecido numa feira de venda de automóveis e ele procurava um Buick 1976. Eu insisti na pergunta e ela me ofereceu um café. Eu disse não, obrigado. E ela ligou a cafeteira e me perguntou se eu tomava puro. Eu falei que sim, com pouco açúcar. Ela então me serviu e apoiou a mão na chapa ainda quente. Eu disse até logo e deixei meu cartão sobre a mesa.
 
- Olha, a gente precisa sentar e conversar.
- Tenho hemorróida. É muito importante?
- Não... Deixa pra lá.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Porque o brasileiro, o ser humano em si, é o tipo de espécie que só aprende quando apanha na cara."

Do flanelinha da rua.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

inverto Garret
só pra dizer
que não te quero
amo-te
Por que não dançam? (um trecho)
Raymond Carver 

Na cozinha, ele serviu-se de outra bebida e olhou para a mobília de quarto que estava no jardim da frente. O colchão estava despido e os lençóis de riscas cor-de-rosa dobrados junto de duas almofadas em cima da cômoda. Tirando isto, as coisas estavam dispostas quase da mesma maneira como tinham estado no quarto — mesa-de-cabeceira e lâmpada de leitura do seu lado da cama, mesa-de-cabeceira e lâmpada de leitura no lado da cama dela. O seu lado, o lado dela. Pensou nisto enquanto bebericava o whisky. A cômoda encontrava-se a curta distância dos pés da cama. Passara os conteúdos das gavetas para dentro de caixotes nessa manhã, e os caixotes estavam na sala de estar. Havia um aquecedor portátil junto da cômoda, e uma cadeira em verga com uma almofada decorativa aos pés da cama. Os móveis da cozinha em alumínio polido ocupavam uma parte da entrada para a garagem. Uma toalha amarela de musselina, demasiado grande, que lhes tinha sido oferecida, cobria a mesa e pendia dos lados. Um feto dentro de um vaso estava em cima da mesa, junto de uma caixa com talheres e um toca-discos, também ofertas. Um grande televisor, modelo de cômoda, estava pousado sobre uma mesa de café, e a alguns passos desta encontravam-se um sofá e uma cadeira e uma luminária de pé. Tinha ligado uma extensão à tomada e havia electricidade, as coisas funcionavam. O gaveteiro estava encostada à porta da garagem. Havia alguns utensílios em cima do gaveteiro, junto com um relógio de parede e duas gravuras emolduradas. Havia ainda na entrada para a garagem um caixote com copos, sopeiras e pratos, cada um dos objetos embrulhado em papel de jornal. Naquela manhã ele esvaziara os armários e, com exceção dos três caixotes na sala de estar, estava tudo fora da casa. Uma vez por outra um carro abrandava e as pessoas olhavam. Mas ninguém parava. Ocorreu-lhe que também ele não pararia.