segunda-feira, 24 de setembro de 2012

por cinco minutos de surdez
por um dia sem ninguém escurraçar um cachorro de rua
pelo último negativo de uma foto do tom selleck com a camisa do magnum
por cadarços mais compridos porque o índice de suicídio infantil é baixo
por mais boatos sobre o fim do mundo transmitidos pelo rádio
por mais h.g. wells
e pânicos movidos a pilhas
por mais cinco minutos de surdez

domingo, 23 de setembro de 2012

aquela garota
você chegou a dar um apelido para ela
(ou não foi assim?)
ou foi você tentando lembrar
dela falando
perdeu, playboy
e você só pensando
na ratazana morta
ainda parindo filhotes
você repetindo
- can you hear me, major tom?-
você achando
que bowie nunca soube
parear lentes de contato

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

tudo meio nick nolte
doendo assim
quando o maldito
skipped light fandango
deixou de ser
salgadinho de isopor
e encheu a tela branca
de cores daltônicas
quando todo homem sonha
com um arquétipo da rosanna
então não fode, jung
deixa os caras com os sonhos
talvez eles nem queiram
muito mais que isso

domingo, 26 de agosto de 2012

ele faz o sinal da cruz antes de comer
eu acho bonito isso
de deus vir assim
em cores tristes
de seleta de legumes

segunda-feira, 13 de agosto de 2012


saca aquela cena de true lies, a metralhadora descendo a escada e matando uma pá de terroristas? eu me amarrava no ex-governador da califórnia. de verdade. eu queria ele cantando love me tender no videokê que eu ganhei numa rifa. o bicho tem até torcida simulada, umas palmas, essas coisas que empolgam a gente. não é nada disso. não teve rifa nenhuma e schwarzenegger é a pior coisa que poderia acontecer com o elvis. eu comprei essa porcaria de videokê porque de todas as merdas que eu tava pra fazer essa era a mais inofensiva. acho que eu tô sentindo falta de você cantando baixinho ou criando histórias pras pessoas que você escolhia ao acaso na lista telefônica. tinha uma em particular. linda. começava num vagão de metrô em paris e ela lia a última fábula dos irmãos grimm. eu queria que você voltasse. pra me contar o final. pra inventar um outro final. ou pra me ajudar a lembrar em que filme o joe pesci manda uma xícara de café pelando goela abaixo. a cafeteira, essa sim, eu ganhei numa rifa de natal. 

domingo, 12 de agosto de 2012

a gente pensa na melhor maneira de dizer algo, até separa umas palavras no aurélio, finge que entende o que são acepções, etimologias, parônimos. derivação por sentido figurado, olha isso! a gente olha pro relógio e se dá um prazo, uns vinte minutos, pra desenrolar a coisa de vez. e se permite um terceiro tempo, uma disputa por pênaltis, simula um w.o. olhando pro teto. faz uma bolinha de papel com o saco de pão e tenta acertar a cúpula do abajur. e erra. e faz chover migalhas no tapete bolando uma armadilha pra baratas. e a chama de kafta pelo prazer de um trocadilho infame ou total incompetência no dialeto tcheco. ou porque a gente sente que certas associações já estão batidas demais. como aquele algo que a gente tem que dizer. e engole até o dia seguinte. até que o suco gástrico o transforme em nada.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


howlin’ wolf anda falando comigo e - thanks devil - não há cura para a esquizofrenia. não, brother, isso passa longe da mente brilhante do russel crowe. isso é você descobrir que passou a vida toda com uma sutura no ciático pra uma garota chegar e arrancá-la com os dentes. assim mesmo. morfina free.

terça-feira, 7 de agosto de 2012


eu fico pensando no cara que acorda de manhã e tem a ideia estapafúrdia de fazer um filme sobre quatro manés que vão surfar no senegal. aí eu penso no produtor executivo que topou bancar  a ideia estapafúrdia de um filme sobre quatro manés que vão surfar no senegal. tá, tem trocentas outras coisas que eu poderia incluir numa top list de temas para abalar corações. mas faz tempo que perdi a mão. faz tempo que john steinbeck não me faz chorar no quesito desgraça humana. eu passo praticamente o dia todo com o tapa-olho que ganhei num voo da tam junto com amendoins. umas porras duns amendoins que apitavam na boca feito queijo coalho e faziam o velho ao meu lado meter um sorriso sacana na cara. é, o velho john que eu ando desprezando já tinha cantado a bola em 1947. o destino viaja de ônibus, baby. o baby foi por minha conta mesmo. pra você lembrar daquele filme com a brooke shields. porque eu não vou me perdoar se você, agora, perder seu sono por conta de um sonho estapafúrdio com quatro manés que vão surfar no senegal. não vou mesmo, pretty.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


olha, não tá tão difícil assim. ainda tem o velho pick up da gradiente e o travis tá bem. uma vez por dia eu coloco o espelho pra ele ficar lá, lutando com ele mesmo. depois ele se entope de flocos de alga numas de comemorar a vitória. o travis é um peixe bacana, a gente não precisa esperar muito dele.  e quando eu me aproximo eu sempre digo: netuno está presente. eu falo bem pausado, com impostação de voz e tudo. sei lá, acho importante ele acreditar nisso. mas como eu tava falando, tá tudo bem. quer dizer, aquela garota anda ligando. ela estragou um bocado as coisas entre a gente, né? mas eu tento pensar em coisas mais destruidoras, como o que aconteceu com o marvin gaye. é foda o when we get that feeling. eu chamo de doer pra cacete mesmo. eu não sou tão boa quanto o travis nisso de esquecer.  ah, eu quebrei uma xícara. no mais, tá tudo no lugar. só de vez em quando eu inverto as almofadas do sofá e assisto televisão de ponta cabeça. só pra rir um pouco da cara do burt lancaster. fica realmente engraçada.

sábado, 4 de agosto de 2012


a gente ouvia the kinks, não era?  tava bem quente no horário de brasília, e não tinha fuso nenhum, a gente não parava de suar. e você tentando abrir aquela latinha de creme nivea, e sua mão girando em falso e aquela sua risada de quem tá falhando mas que se dane. tinha um esqueleto de lagartixa lá dentro, e você afirmando com toda empolgação que, ao contrário do que diziam, taxidermia era a profissão mais antiga do mundo. você a chamou de lola -a gente ouvia the kinks, não era?- e criou um passado de gladiadora pra ela. com arena e tudo. sempre me encantou essa sua capacidade de transformar tudo numa avant-première. trocando sem pestanejar os óculos 3d pelo brilho nos olhos do menininho que encontrou o bilhete premiado de willy wonka - olha, eu também não gostei da versão do tim burton. hoje, my last boyscout, eu fico imaginando que você tá só escondido numa casa na árvore. num lugar bem perto, na esquina de baixo, num canto da sessão da tarde.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

das coisas mais bonitas que eu ouvia sobre você
de você escutar dalto trancado na despensa
treinando a assinatura de philip morris
em papel carbono
e empilhar livros de somerset maughan
porque achava o nome pomposo pacas
de bater punheta
pra jurema da lata de ervilhas
que tua mãe colocava na sopa
quando o jantar era servido
pontualmente às dezoito
de mancar por conta do velho rider
remendado com tachinhas
se dizer faquir de um país qualquer
se dizer capaz de um novo truque
com cartas de tarô
até que elas lhe disseram
que não teria muito tempo
foi quando você pegou aquela navalha
de barbear o seu avô
e estilhaçou a palma da mão esquerda
a que dizem guardar
-eu não sei se vale para canhotos-
intersecções de tudo
que ainda não aconteceu


quarta-feira, 1 de agosto de 2012


1933 foi um ano ruim pro john fante. eu nem tinha nascido, baby, e a coisa já andava feia. e eu te digo, na responsa, não tem como aliviar. nossas úlceras já estão curtidas no domecq, algum traficante de órgãos talvez se interesse em expô-las num pie sucio no méxico e com um pouco de suerte a gente até encha de água os olhos do velho mariachi aposentado. e ele comece a jogar dardos na foto daquele cara que cometeu o disparate de compor algo do naipe de jackie tequila. eu sempre quis chamar alguém de escroque antes de me mandar daqui. acho que deus não vai se importar por isso ser de fato a única coisa que eu queira fazer. minto. antes disso eu vou arrumar um cachorro e ficar vendo ele pular umas ondas. apóia a cabeça no meu colo nessa hora, baby. deus não vai se importar com isso também.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

eles se reunem
em hotéis
convenções para vender
raladores elétricos de queijo
estratégias para convencer
potenciais compradores
de raladores elétricos de queijo
e ganham uniforme
um crachá
com uma foto
daquele sorriso besta
para que saibam se distinguir
uns dos outros

domingo, 29 de julho de 2012

tem um troço que dá
que deve ser instinto
ou o último lance de um jogo de rugby
quando a gente já tá chutando
a própria cara

ela
pó de arroz
ele
óleo de peroba
ela
dia de visita
ele
soco no vizinho
ela
cupom de desconto
ele
ingresso pro filme de ontem
ela
que chegou
minutos antes
do massacre

sexta-feira, 27 de julho de 2012



você tem isso de viver entre mudanças
de números do relógio digital
escolhe o toque canto do galo pra acordar
pra que tudo seja assim mesmo
ridículo
como as pantufas que você mete nos pés
pra dar uma de pato donald
no holiday on ice
tem aquela iluminação via spot
tudo mó style
que o próximo inquilino
vai mandar arrancar
e a constelação de órion
que você montou com o velho kit de starfix
e acabou chamando de nebulosa
só pra impressionar a garota míope
que você esqueceu
semana passada
na sala de estar

hai-ka-brón

ela bebia
um cosmopolitan
toda sexy
in mexico city
matou un hombre
en havana
fugiu na barca
de eternit

quarta-feira, 25 de julho de 2012

a gente finge que não se importa
ter mais de 40
perda óssea
e uso obrigatório de lentes corretivas
ter se apaixonado loucamente por holden caulfield
e desprezado ferris bueller
ouvir 'brigado, tia'
ter jogado tudo pelos ares
e se atrapalhar com tecnologia touch screen
ter perdido aquele cara pruma garota
e aquele outro também
com a bombinha de aerolin no criado-mudo
e uma impaciência com parágrafos que descrevem paisagens
com o preço do restaurador pro-age-active
em passar incólume pela blitz do bafômetro
e doar nossas camisetas já curtas demais
em sentir alívio porque o que aconteceu era apenas bullying
com a solidão do quarto de hotel
e o espelho virado pra parede
a gente finge que não se importa
com um novo dia

terça-feira, 24 de julho de 2012

você se lembrou
de pegar o casaco
na lavanderia
de fazer aquela prece
pro que você não acredita
de colocar fluido
no seu zippo
- eu gosto daquele clic antes da chama -
de colocar o despertador
no modo silencioso
preu te acordar
com uma palavra que inventei
um anagrama de
assim que eu voltar

sexta-feira, 20 de julho de 2012


saudade tem forma de parábola
de fábula
de bola de basquete
que quica no cesto
e acerta nossa testa
como um tiro de burroughs