quinta-feira, 16 de setembro de 2010



Uma vez fui fazer um curso de Evolução Molecular no Marine Biological Laboratory em Woods Hole, uma pequena cidade ao norte de Massachusetts. O cronograma era insano, tivemos apenas um dia de folga no qual fomos até Marhta´s Vineyard, a ilha onde John John Kennedy caiu com seu avião. Alugamos bicicletas para conhecer a ilha e eu, conhecendo minha falta de genes para esportes, pressenti que algo não sairia bem. Eu nunca havia utilizado uma bicicleta com marchas, e elas eram dezesseis. Partimos. Eu intercalava as marchas de forma a passar quanticamente do slow motion ao absolutely fast, coisa que nem Chaplin conseguiria. Segui o grupo por algum tempo mas depois fui ficando para trás. Minhas pernas entraram em colapso quando meu cérebro ordenou a cada uma delas uma diferente frequência de rotação. O grupo foi virando um ponto no horizonte e desapareceu. Claro que eu não tinha um mapa e claro que ninguém se importava em parar de fazer cooper ou pedalar para me dar informação. Pedalei, pedalei, pedalei. Fiz uma pausa, exausta, na porta da garagem de uma das mansões e um carro saiu. Teve que parar para não me atropelar.
- Dear sir, for god sake, where is the ferry?
Ele me indicou, mas se esqueceu de falar que havia mais de um porto de balsas por lá. Lá fui eu em direção à balsa errada. Estava um sol de lascar e eu já estava roxa. Pensava na multa que iria pagar pelo atraso na devolução do biciclo. Depois pensei que Dri Dri Brunstein também iria morrer ali. Foi então que uma menina loira, em sua própria bicicleta, passou por mim, parou e voltou.
- Are you ok?
- No, I´m not ok, I´m lost.
- Yes, I know. That´s why I´m here.
- What do you mean?
- Don´t you believe in angels?
Ela de fato parecia um anjo. Disse-me que a função dela era essa, ajudar pessoas. Fez com que eu me refrescasse num daqueles jatos regadores de jardim e depois me levou até a casa de uma senhora, me deu água, suco. Pegou minha bicicleta e a colocou no porta-malas de uma pick-up. Levou-me de volta à balsa certa onde os alunos e policiais analisavam minha ficha de desaparecimento. Isso levou horas, meus caros, foi a travessia de McCarthy. A menina desapareceu. Voltamos para Woods Hole e eu devo ter hibernado tentando interpretar tudo aquilo sob meu ponto de vista científico. Não consegui. Na manhã seguinte, quando entrei na classe exalando Gelol, alguém havia desenhado na lousa um mapa com uma garotinha de cabelos enrolados numa bicicleta e os dizeres:
- Where on Martha´s Vineyard is Adriana?
Foi assim que eu ganhei o Wally Award.
Tem coisas que simplesmente acontecem.

2 comentários:

Marina F. disse...

haha, Dri, que ótima história.
bjs.

Adriana Brunstein disse...

Ma, na hora parecia filme de terror!
Um beijo