segunda-feira, 8 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Ser solidário é oferecer o pescoço ao sacrifício. Se for o caso, contrariar os próprios interesses em favor do injustiçado. A mesma lógica que funciona para quem dá sem esperar algo em troca – por desapego. E mais, sem esperar reconhecimento e/ou retribuição: uma vez que a solidariedade é mais do que um gesto, pois se trata de doação. E a doação não aufere pesos nem medidas: mesmo porque o injustiçado pode ser um canalha e a justiça pode se revelar uma injustiça cabeluda.
Tem mais. Não julgar sob hipótese alguma. Sobretudo aquele que é incapaz de agir da mesma forma que você (porque existe a grande possibilidade de que você também esteja errado ...) portanto, ser solidário é encarar o cuspe como se fosse o beijo e vice-versa. A partir daqui, em tese, subiríamos um degrau. Vamos falar de compaixão. Que nasce da solidariedade gratuita: o tipo de sentimento que jamais ameaça ou condena, apesar de todos os pesares. Algo que se compartilha de igual para igual, nem de cima para baixo nem de baixo para cima. Daí brota o perdão, quase que despercebido. Nem precisa ser nomeado.
Marcelo Mirisola
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
-Então, você já está na idade da loba, já passou por todo tipo de relacionamento e agora que tá aí, toda apaixonada por aquele cara, tem agido como adolescente. Você não pode esperar um pedido de casamento por conta de algumas coisinhas que você fez com a presunção de tornar óbvia a sua intenção. Não é assim, ele pode não ter percebido nada. E, além do mais, você não é tão óbvia quanto pensa. Tó, leia esse livro.
-Ai, autoajuda?
-Dri...
-E se ele fizer parte dos homens que correm das lobas?
-Dri...
-E se ele fizer parte dos homens que correm das lobas?
-Dri...
-Tá bom, tá bom, eu leio.
domingo, 31 de outubro de 2010
-Um dia aí, à noite, eu estava com insônia e comecei a gargalhar sozinho.
-Por quê, pai?
-Uma piada que eu inventei.
-Que piada?
-Então...esqueci.
________________________________________________________
-Eu sempre me lembro, no banho, daquele seu post sobre como matar moscas de banheiro.
-É um dos meus prediletos.
-Mas você não tá gastando muito shampoo com isso?
-Não, eu uso a espuma que se forma.
-Ah tá... Será que já existe patente pra Shamposca?
-Por quê, pai?
-Uma piada que eu inventei.
-Que piada?
-Então...esqueci.
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-Eu sempre me lembro, no banho, daquele seu post sobre como matar moscas de banheiro.
-É um dos meus prediletos.
-Mas você não tá gastando muito shampoo com isso?
-Não, eu uso a espuma que se forma.
-Ah tá... Será que já existe patente pra Shamposca?
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
E ele queria usar palavras como sobrolho, vicissitude, tergiversar, queria contar que esteve na Antuérpia e pegou um trem, que tragava fumaça de charutos e caçava alces numa savana qualquer. Queria dizer que admirava Egon Schiele e que carregava no bolso a herança de um tio distante. Ele queria falar das alergias que teve na infância e de um matadouro de porcos que funcionava atrás do armazém. Queria dizer que tinha um problema no coração e que às vezes o ar lhe faltava. Que adormecia em filmes longos e que não tivera filhos. Que eram poucos os sonhos dos quais se lembrava. Que desconfiava que não sonharia mais.
sábado, 23 de outubro de 2010
Havia um boticário na Rua do Boticário. E ele deveria continuar lá porque o estado de letargia no qual saímos, Mimi, Cocó e Cocotinha, daquele balcão daquela feijoada daquele boteco daquele garçom que rabisca contas à lápis naquele balcão é grave. Grave a ponto da Galeria Olido parecer estar no Texas. Grave a ponto de pegarmos um elevador estilo anos 20 para subir um andar e acabar com o estoque de água daquele estúdio de tatuagem e jogar o copinho num amável lixo da marca Pork´s. Mas gravidade é coisa da cabeça do Newton, ou na cabeça do Newton. E como grávitons nunca foram detectados e eu nunca entendi o espaço curvo de Einstein, que venha o próximo sábado.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
E assim foi. Passaram-se anos que ele marcava em cartas de baralho. E se sentava em frente à lareira e tomava um conhaque e pensava em amendoeiras. E se levantava para atiçar o fogo quando esse fraquejava. E tornava a se sentar e beber e pensar que sentia falta dela. E pegou a dama de copas com a data de 1995 e a jogou no fogo. E a viu queimar até virar cinza. E voltou a pensar em amendoeiras.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Ela levantou o lençol e disse não é ele. Eu perguntei tem certeza? Ela respondeu que sim, que haviam se conhecido numa feira de venda de automóveis e ele procurava um Buick 1976. Eu insisti na pergunta e ela me ofereceu um café. Eu disse não, obrigado. E ela ligou a cafeteira e me perguntou se eu tomava puro. Eu falei que sim, com pouco açúcar. Ela então me serviu e apoiou a mão na chapa ainda quente. Eu disse até logo e deixei meu cartão sobre a mesa.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Por que não dançam? (um trecho)
Raymond Carver
Raymond Carver
Na cozinha, ele serviu-se de outra bebida e olhou para a mobília de quarto que estava no jardim da frente. O colchão estava despido e os lençóis de riscas cor-de-rosa dobrados junto de duas almofadas em cima da cômoda. Tirando isto, as coisas estavam dispostas quase da mesma maneira como tinham estado no quarto — mesa-de-cabeceira e lâmpada de leitura do seu lado da cama, mesa-de-cabeceira e lâmpada de leitura no lado da cama dela. O seu lado, o lado dela. Pensou nisto enquanto bebericava o whisky. A cômoda encontrava-se a curta distância dos pés da cama. Passara os conteúdos das gavetas para dentro de caixotes nessa manhã, e os caixotes estavam na sala de estar. Havia um aquecedor portátil junto da cômoda, e uma cadeira em verga com uma almofada decorativa aos pés da cama. Os móveis da cozinha em alumínio polido ocupavam uma parte da entrada para a garagem. Uma toalha amarela de musselina, demasiado grande, que lhes tinha sido oferecida, cobria a mesa e pendia dos lados. Um feto dentro de um vaso estava em cima da mesa, junto de uma caixa com talheres e um toca-discos, também ofertas. Um grande televisor, modelo de cômoda, estava pousado sobre uma mesa de café, e a alguns passos desta encontravam-se um sofá e uma cadeira e uma luminária de pé. Tinha ligado uma extensão à tomada e havia electricidade, as coisas funcionavam. O gaveteiro estava encostada à porta da garagem. Havia alguns utensílios em cima do gaveteiro, junto com um relógio de parede e duas gravuras emolduradas. Havia ainda na entrada para a garagem um caixote com copos, sopeiras e pratos, cada um dos objetos embrulhado em papel de jornal. Naquela manhã ele esvaziara os armários e, com exceção dos três caixotes na sala de estar, estava tudo fora da casa. Uma vez por outra um carro abrandava e as pessoas olhavam. Mas ninguém parava. Ocorreu-lhe que também ele não pararia.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Haas gostava de sentar no chão, encostado na parede, na parte sombreada do pátio. E gostava de pensar. Gostava de pensar que deus não existia. Uns três minutos, no mínimo. Também gostava de pensar na insignificância dos seres humanos. Cinco minutos. Se não existisse a dor, pensava, seríamos perfeitos. Insignificantes e alheios à dor. Perfeitos, caralho. Mas lá estava a dor para foder com tudo. Por fim pensava no luxo. O luxo de ter memória, o luxo de saber um idioma ou vários idiomas, o luxo de pensar e não sair correndo.
2666. Roberto Bolaño.
2666. Roberto Bolaño.
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