A sensação do enfarte deve ser similar àquela de beber água com gás na posição horizontal. Foi o mais próximo que cheguei de uma Near Death Experience. Como eu desconfiava, não há o glamour de uma luz branca com virginais fótons recém-nascidos. Mas fica um brinde à Planck. É justo.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
uma noite regada a drinks inpirados na dinastia Tudor que acorda com um desaparecido Emmet Ray enquanto você sonha com receitas farmacêuticas para comprar frango à passarinho. um texto de alguém que luta contra o câncer lido assim que a tarde amanhece. eu te digo bom dia e acendo o último cigarro. as letras no jornal seguem um tanto embaralhadas e eu não sei te dizer como tudo acaba, você diz que precisa mandar arrumar os óculos. e quando você sai para comprar um pão de queijo e outro maço de cigarros fica tudo tão vazio que eu me tranquilizo imaginando que toda a ação está momentaneamente em Hollywood e Michael Bay faz Tom Cruise aterrisar na mansão e matar o terrorista. bem na hora da execução eu sorrio com a sua volta no barulho da porta e te digo, ele ainda está vivo. você pensa que eu falo do terrorista mas não.
terça-feira, 26 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
lavou retalhos de perfex prestando atenção na sujeira que deixava cada buraquinho. e os pendurou no varal intercalando as cores como bandeiras de festa junina. o rádio noticiava uma tragédia numa festa de casamento e alguém disse que era amiga do noivo. pensou que barulhos de disparos eram indistinguíveis dos das quadrilhas. mudou de estação e se sentou na velha cadeira de balanço. junho ainda estava longe.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Você acha que deus olha pelas pessoas?
Acho que olha. E você?
Também acho. Do jeito que o mundo é. Alguém pode acordar e espirrar em algum lugar do Arkansas ou outra porra de lugar qualquer e antes que acabe tem guerras e ruína e todo o inferno. A gente não sabe o que vai acontecer. Eu diria que ele tem de olhar. Não acredito que a gente vivesse um dia de outro modo.
Todos os belos cavalos. Cormac McCarthy.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
Eu escolho algumas palavras ininteligíveis como aquelas de exames de sangue. Triglicérides. Elejo um super herói desconhecido e lhe atribuo um poder tosco como capacidade de controlar a contagem do número de plaquetas após uma infecção por erlichia. Discurso sobre o número áureo e propriedades dos elementos químicos raros. Filmes de terror japoneses me assustam e eu aperto levemente tua mão. O que eu sei não chega aos pés disso.
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Prensei dois dedos na porta, gangrena não é algo tão instantâneo assim. E você sabe da minha inabilidade com a mão esquerda, eu erraria os números do teu telefone que eu decorei por pura incapacidade de usar uma agenda. Eu sinto falta daquele aparelho antigo, com o disco, a gente se irritava um pouco com o excesso de zeros nos números de assistências técnicas. Eles diziam horário comercial e prendiam a gente em casa, olhando praquela máquina ociosa no canto da área de serviço. Você fumava e jogava bitucas no vão do elevador, só pra ninguém ver. A dor tem as cores de Munch, já notou?
sexta-feira, 25 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
"Sou, por temperamento, um vagabundo. Não quero dinheiro tanto a ponto de ter de trabalhar por ele. Na minha opinião, é uma pena haver tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes que existem é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas por dia, todos os dias, é trabalhar. Você não pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor por oito horas — você só pode trabalhar por oito horas. E é por essa razão que o homem faz a si mesmo e a todos os outros tão miseráveis e infelizes.”
terça-feira, 15 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
Aquela fome que bate às quatro da manhã enquanto a operadora de TV a cabo libera alguns canais. A piada do seriado de quatro anos atrás ainda funciona. Eu queria te contar mas não me lembro. Eles chamam isso de degustação e têm a certeza de que no dia seguinte a gente vai comprar o pacote. Eles deveriam saber que às vezes tudo que a gente quer é que não amanheça.
quarta-feira, 2 de março de 2011
é se matar com um tiro no pé porque a morte tem que ser lenta
é acreditar que meditação zen funciona e que a paz está logo ali no hemisfério esquerdo do seu cérebro
é se gabar por ter passado incólume pela câmera de segurança da loja escrota do shopping center onde trabalha a vendedora que não sabe que se trepa de quatro
é comprar um 4X4 zero km para assistir na televisão da sala os afogamentos causados pela enchente
é cuspir o tabaco do charuto úmido dentro do aquário e tapar a cárie com fumaça
é vomitar numa latrina química porque alguém te encheu a cara de declarações instantâneas dizendo que o amor era pra valer
é enfiar um tubo na sua traquéia porque ela está toda arranhada por pílulas quadradas de felicidade que não se dissolvem em água
é colecionar filmes do Abbas Kiarostami e pensar que isso realmente impressiona a filha da sua madrasta que é alérgica ao látex de camisinhas
é sentar com deus na mesa suja do canto do boteco e trocar uma última palavra antes das duas pedras de gelo
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