quarta-feira, 21 de julho de 2010

O cara disse que não ia demorar muito, mas pelo cano alto das botas que ele usava eu desconfiei. Três cafés e meio pão com mortadela. Uma cachaça de 1,50 e um prato de tremoços.
-Você paga.
Saquei uma nota de 20 da carteira.
-Então vai ser amanhã?
-Logo cedo.
-E como eu fico sabendo que tudo correu bem?
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
-Então assim que eu...
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
Levantei-me e ensaiei um até logo. Ele palitava os dentes. O sol acertou minha nuca em cheio. Era pouco mais de meio dia e eu pensava em que fim levou o Minister.

quinta-feira, 15 de julho de 2010


E aí as coisas vão rodando em espiral, para a direita ou para esquerda, dependendo de que América você está. Na Central as coisas devem descer em uma sem graça linha reta. Por alguns poucos reais você compra um protetor de ralo. Aquela redinha metálica que fica encrustada de arroz. Caso um grão de feijão cru seja esquecido no pequeno reservatório-peneira ele brota. Vale observar esse curioso fenômeno caso sua infância não tenha te dado como lição de casa fazer brotar pé de feijão numa bola de algodão. Para tirar essa pechincha do ralo você precisa de unhas ou de uma faquinha. Cuidado no manejamento, senão todo conteúdo pode vasar, pela direita ou pela esquerda, e fluir pelos canos da cidade. Macarrões são extremamente aderentes e, como lagartixas, deixam soltar um pedaço para que o resto se salve. Um triturador de lixo custa em torno de 1000 reais. Você pode pagar em até 5 vezes mas ele jamais te levará à galinha dos ovos de ouro.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pot Talk



Madrugada.
- Meu, o Mirisola é a única pessoa no mundo que ainda usa o yahoo!
- O que você acha de "com tua lã macia e berne"?
- Berne? O verme?
- Não! É um pano vermelho.
- Sério? Eu pensei em sapinho ou coisa do gênero.
- Era produzido na Irlanda.
- Mas as pessoas vão saber isso?
- Se não souberem pelo menos fica instigada a curiosidade da busca.
- Eu não contaria com isso, ainda penso em brotoejas.
- Tá bom, vai. Deixa eu trabalhar.
- Vamos por no google?
- O que?
- A berne.
- É o berne. Substantivo masculino.
- Tá, então vamos por o berne no google?
- O google é uma merda. Abre o Houaiss online aí.
- Boa! Pronto.
- Como é que você fala Houaiss?
- Eu falo RAUAIS. Mas tem gente que fala ROUAIS. Ou RUAIS.
- Sei lá. Eu não pronuncio o H. Qual a origem desse nome?
- Bom, se ele fez um dicionário de português deve ser portuguesa, né?
- !!!!
- Ah! Coloca ele nele mesmo!
- O quê?
- Coloca Houaiss no Houaiss.
- Tá falando sério?
- Claro. Ele vai dar origem, etimologia, data, aquela coisa toda.
- Se eu colocar você fica quieta?
- Fico.
- Então tá. Coloquei.

A palavra houaiss não foi encontrada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Vida na província

Chegando no museu você vira à esquerda. Segue reto. Passa por patriotas, princesas Isabeis, Marias Loucas e alguns desconhecidos Xavieres. Daí você cai na Cisplatina. Tá quase chegando. Quando chove fica tudo cheio de poça. De madrugada fica tudo vazio e os únicos sons vêm dos rojões de Heliópolis. É cheio de casinhas e algumas portas ficam entreabertas para que alienígenas como eu sejam observados. Tem uma comidinha boa na esquina e o pôr-do-sol é bacana.
-Você é moradora nova?
-Não, estou na casa do meu pai.
-Ah, aquele senhor do 163?
-Não, não. Ele é do 182.
-Que bom. Você soube que a porta da garagem caiu na cabeça dele?
-Do meu pai?
-Não. Do Seu Assad do 163. Levou quinze pontos.
A porta da garagem só fica aberta por 13 segundos e não tem sensor. O Seu Assad não deveria tentar memorizar o hino nacional debaixo dela.

terça-feira, 30 de março de 2010

Darwin 3

Pelo menos umas três pessoas blogaram sobre pássaros hoje. E como os urubus que moram no topo do prédio aqui em frente estão um tanto inquietos, resolvi registrar também os pterodáctilos evoluídos e jogar fora os travesseiros de pena de ganso.

quinta-feira, 25 de março de 2010



Sempre que eu estou longe do meu celular eu acho que ele está tocando. Aí eu saio correndo. Mas ele não tocou. Ele nunca toca. É que a obra aqui na frente faz muito barulho, tem uma sirene pro almoço. Eu sempre acho que você vai ligar enquanto aqueles caras abrem suas marmitas amassadas e chamam de mistura o que vem ao lado do arroz com feijão. Eu mudei o toque do celular, porque o que estava antes não dava pra ouvir do chuveiro. Vai ver era porque não tocava mesmo. Eu nunca entendo direito as coisas e achei que você ia ligar pra me explicar pelo menos porque... A chuva está forte hoje, e dizem que isso atrapalha o sinal. Algumas pessoas foram soterradas num bairro distante. E se você ligasse, elas também não ouviriam. Uma delas nunca acreditou que o homem pisou na lua. Jurava que foi armação do Nicho. Era assim que ela chamava o Nixon. Nicho. Como aquele seu apelido que eu nunca acertei.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A vida que fica em PB.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quando eu parei de encaixotar coisas estava passando O dia em que a Terra parou na TV. Com o parado Keanu Reeves no papel de um inexpressivo alienígena. O problema é que ele salvou o planeta e amanhã eu tenho que recomeçar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010



As olimpíadas de inverno de Vancouver no Brasil foram canceladas devido à virada do tempo. Isso significa que eu não posso mais utilizar o avançado processo de derretimento cerebral como desculpa para mantê-lo inativo. Vou tentar pôr a culpa no Fidel.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Olimpíadas de inverno de Vancouver


3º lugar em derretimento de Pentium.
Menção honrosa em suadouro involuntário.
Próxima modalidade: derretimento de cérebro.
Vou levar ouro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Alguém devia parar esse calor porque os ventiladores estão esgotados.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Foi o que aconteceu por aqui ontem. Breu. Cinco horas após a tempestade a luz se foi. E sempre que isso acontece, o povo do prédio em frente, que nunca sofre apagão, aparece nas janelas para rir secretamente de nossas velas.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Por cada linha,
Por toda reclusão.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Conversa com a impressora - parte II

- E aí, gostou do cartucho novo?
- É, gostei.
- Então faz o seguinte, imprima da página 78 à página 1, ou seja, imprima o arquivo na ordem inversa.
- Ok.
Brrrrrrrrrrrrrrrrr.Chuimmmmmmmmmmmmm. Spofffffffffffffffffft.
- Pronto.
- Já?
- Eu sou bem rápida.
- Cadê o meio?
- Que meio?
- Tem da página 1 à 5 e da 73 à 78. E o resto?
- Deve estar aí no meio.
- Não, não está.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Que estranho... Dá o comando para eu imprimir o resto então.
- Pronto.
Brrrrrrrrrrrrrrrrr.Chuimmmmmmmmmmmmm. Spofffffffffffffffffft.
- Ainda tá faltando coisa no meio.
- Não acredito.
- Muito menos eu.
- Olha, eu devo ter problemas com a ordem inversa, você pode desmarcar essa opção?
- Tá, eu desmarco. Pronto. Agora vai.
Brrrrrrrrrrrrrrrrr.Chuimmmmmmmmmmmmm. Spofffffffffffffffffft.
Glunk.
- O que foi agora?
- Acabou o papel... Que chuva, né?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2010



E aí começa o ano e você amarga horas nas ruas encharcadas. Você espera ansiosamente que aquele site libere mais um jogo porque você está cansada demais para dormir. Sua lamparina de leitura está na casa do Mário e você rouba o abajur da sua mãe. É luz demais e você não acha o primeiro romance de Chuck Palahniuk tão bom quanto os outros. O Boris Casoy não gosta de garis.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Memórias da sauna finlandesa



Desde a época que eu tinha medo do Mirisola ele já tinha espaço reservado na minha estante. E confesso que lambi um azulejo. Taí o novo livro dele, já à venda no site da Editora 34.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto




Amanhã, quinta-feira, estaremos lá no Café Aurora, a partir das 23:00, para torcer ainda mais pelo Mário e ajudar sua família com um show com Saco de Ratos, Fábrica de Animais, Velhas Virgens, e participações do Márcio Américo, do Pinduca, do Marcelo Montenegro, do Paulo de Tharso. Todos os dias temos ido ao hospital. Somos muitos. Muitos amigos, admiradores, e esse bando de loucos está fazendo de tudo, o tempo todo. E eu pude conhecer cada um deles melhor e perceber as pessoas incríveis que são. E como o Mário faz parte desse mundo particular que cada um carrega. Todos os dias.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009



Às vezes tudo fica meio P&B.
E a gente espera passar.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Para Ademir Assunção


A arte de flambar rabinos

Deixa-me permear
Pelo impermeável em ti
A pele já não descasca
Trespassa
Na esperança de osmosear
Com o poeta que eu nunca li
Nessa prisão de lucidez
Tento arrancar minha tez
Mas meus poros dilacerados
Clamam por ti logo, de vez
Ah, Ademir, não vês?

(inspirado na espectadora deslumbrada do Zona Branca)

Valeu o domingo, Pinduca!

O gênio e o biólogo



O biólogo encontrou uma lâmpada mágica. Vou dissecar, pensou. Estudou sua anatomia. É fêmea, apurou. E ansioso, a esfregou. Por entre a fumaça apareceu o gênio. Era macho. Ora, ora, não é que Darwin errou?

- O senhor tem direito a três pedidos.

O biólogo, espantado, tentou fazer um três com a mão, mas o dedão não alcançava o mindinho. Merda!

- Eu não tenho o dia inteiro.

- Dá pra ter um pouco de paciência?

- Tudo bem, mas esse foi seu primeiro pedido.

- Como assim?

- Seu primeiro pedido foi para que eu tivesse um pouco mais de paciência.

- Mas que palhaçada é essa? Fala sério.

- Seu segundo pedido. Estou falando sério. Você só tem mais um.

O biólogo, furioso, bufou, jogou a jaqueta para trás, andou em círculos, fumou três cigarros e teve a grande sacada.

- Eureca! Dividirei meu pedido único em três. Um que seja composto por 40% de algo, 30% de outro e mais 30% de ainda outro.

O gênio, já sem saco, materializou uma garrafa de Salentein tríplice e desapareceu. O biólogo serviu o vinho numa taça, o fez bailar no copo, inspirou o aroma e saboreou o primeiro gole.

- Ah... Malbec! Meu predileto.

O biólogo jamais conseguiu o emprego na vinícola.


Para Daniel Cavana.