é um tanto previsível o que acontece quando eu saio do meu apartamento. a vizinha velha e corcunda assiste datena o dia inteiro. em algumas madrugadas seu marido bêbado esmurra a porta. ela também assiste datena em algumas madrugadas. os taxistas do ponto cumprimentam o meu cachorro, fazem sempre a mesma piada. e eu sempre dou risada. um velhinho alimenta pombos com milho sempre no mesmo horário. certa vez ele me contou que resolveu usar um boné pra ver se os pombos o reconheciam. eles o reconheceram. grupos de funcionários de várias empresas saem para o almoço. é sempre o mesmo padrão. um gordo que tenta ser engraçado, uma japonesa que ri, um cara com calças apertadas demais que fala ao celular, outro que anda pouco atrás fumando um cigarro, uma gostosa que manipula os cabelos sem parar e tanta não fincar o salto nos buracos da calçada. o pedinte parado à frente da padaria perguntando se sobrou alguma coisa. as pessoas respondem que pagaram com cartão. alguém me pergunta como faz para chegar na beneficência portuguesa. alguns adolescentes fumam um back numa rua pequena, depois se beijam. uma senhora que ficou viúva recentemente me conta que tá difícil manter o apartamento agora grande demais. a maioria dos pedestres passa batido pelo despacho na esquina e pelas faixas de segurança. meu cachorro se recusa a fazer um caminho diferente. ele parece estar seguro de algumas coisas. eu o acompanho.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
transar com aquele cara era como passar grecin no cabelo. eu passei a denominar a coisa toda de operação pente fino. eu juro que na hora que ele me olhava e eu sentia a intenção toda eu imaginava o cid moreira falando: começa agora a operação pente fino. ou ainda pior, do naipe da velha zebra do fantástico rindo da minha cara. mas a gente tem que passar pela merda dos 20 anos e meter uma aliança no dedo. a gente tem que dizer que os anos 80 foram incríveis e que soltamos fogos de artifício quando abrimos a porta para a primeira pizza que não foi encomendada pelos nossos pais. a ousadia tinha gosto de cheddar e a porra de um bar de mogno na sala. mas não tinha a dignidade de uma boa dose de scotch. era frisante, prosecca, decorada com aqueles malditos guarda-chuvinhas de papel crepom.
domingo, 13 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
tem uma coisa na maneira que você sobe na escada
pra escolher um filme do tarkovski
tem uma mensagem subliminar no seu cartão de visitas
tem sua insuportável mania de estalar beijos no meu ouvido
e seus cabelos que fazem cócegas no meu ombro
tem aquela sua camisola de megastore que sacaneia seus joelhos
e vai se desfazer na primeira lavagem
tem seu curso rápido de inglês
e seus amigos que te pagam uma cerveja na happy hour
tem essa besteira de você querer que eu me excite com antropologia
tem seu salto preso na calçada
e as moedas que você joga pro pedinte
tem sua falta de sentido no espelho retrovisor do meu carro
e sua frieza ao alimentar o gato
tem sua medalha de ginástica olímpica
e aquilo que você faz com as pernas
esqueça o resto
pra escolher um filme do tarkovski
tem uma mensagem subliminar no seu cartão de visitas
tem sua insuportável mania de estalar beijos no meu ouvido
e seus cabelos que fazem cócegas no meu ombro
tem aquela sua camisola de megastore que sacaneia seus joelhos
e vai se desfazer na primeira lavagem
tem seu curso rápido de inglês
e seus amigos que te pagam uma cerveja na happy hour
tem essa besteira de você querer que eu me excite com antropologia
tem seu salto preso na calçada
e as moedas que você joga pro pedinte
tem sua falta de sentido no espelho retrovisor do meu carro
e sua frieza ao alimentar o gato
tem sua medalha de ginástica olímpica
e aquilo que você faz com as pernas
esqueça o resto
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
do teu jeans surrado
tua blusa listrada
como a do freddy krueger
lembro da tua edição de bolso
de amar, verbo intransitivo
toda pintada com marca texto
e que você tava empolgado
com a faca bowie do antiquário
que você juntava moedas
pra um maço de lucky strike
lembro de você
um pouco depois
nu em frente ao espelho
me dizendo
eu inspirei aquela raça
de cães pelados do méxico
e aquela tua risada
depois a minha
hoje o velho antiquário
é uma loja do starbucks
eles escrevem meu nome no copo
eu deixo lá
o garoto com seu primeiro emprego
tem também seus olhos
e um jeito engraçado de dizer
que o café vai esfriar
o primeiro amor eu perdi numa quadra de esportes
numa cesta de três pontos
um apito do juiz
eu olhei pro lado
eu não sou cheerleader
ele tinha espinhas
eu não sabia dançar
e eu fiquei por lá
colecionando declarações de amor
dos pacotes de gotas de pinho alabarda
que hoje eu sei
é também o nome
de uma arma das guerras púnicas
e de primeiros amores
que esmigalham nossos ossos
com lâminas transversais
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
eu não tenho amigos de infância, turma bando time equipe. eu não atendo telefone, não dou parabéns, não respondo e-mail. eu não abro extrato bancário nem colaboro com organizações não governamentais. eu não sigo a máxima do não esqueço mas perdoo. eu não desvio de macumba na calçada e jogo bitucas de cigarro na sarjeta. fico em silêncio me afasto desapareço, não dou satisfação. eu finjo que não tô. minha gestão transparente se resume a doses deliberadamente corruptas de rum vodka tequila prata. eu geralmente derrubo metade do saquinho de molho em pó para macarrão instantâneo. eu escrevo biografias de manicures só pela piada de trocar os pés pelas mãos. eu não sei rimar flores dores amores, eu ainda digo tv a cores. felicidade, pra mim, é ser balconista do consórcio remaza. há 44 anos no mercado.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
porradaria em jogo de hóquei
no canal de esportes
da tv a cabo
caras que ficam sequelados
aos 28 anos de idade
em qualquer motel de denver
traficantes de oxicodona
que circulam em pátios
de conjuntos residenciais
policiais com lábios sujos
de donuts de framboesa
café que escorre
pelo decote de prostitutas
travestis que se chamam dorothy
cobram cinquenta dólares
e dizem amém
assim que se abaixam
e olham pela janela
de mustangs prateados
psicopatas aposentados
que se mudam para a irlanda
e testam novos sotaques
para gargantas cortadas com arame
no canal de esportes
da tv a cabo
caras que ficam sequelados
aos 28 anos de idade
em qualquer motel de denver
traficantes de oxicodona
que circulam em pátios
de conjuntos residenciais
policiais com lábios sujos
de donuts de framboesa
café que escorre
pelo decote de prostitutas
travestis que se chamam dorothy
cobram cinquenta dólares
e dizem amém
assim que se abaixam
e olham pela janela
de mustangs prateados
psicopatas aposentados
que se mudam para a irlanda
e testam novos sotaques
para gargantas cortadas com arame
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
tópicos nebulosos
garotos de filme iraniano
bíblias segundo a record
invasão da normandia
bolo de fubá da tua tia
vibrador elétrico
colônia para impregnar elevador
bicho de pelúcia
buquê de miosótis
cirurgia reparadora de epiglote
bodes para rituais
cabras marcadas para viver
coelho de panela da glenn close
fuga de galinhas em 3d
a vida é só um blockbuster
que você não vê
garotos de filme iraniano
bíblias segundo a record
invasão da normandia
bolo de fubá da tua tia
vibrador elétrico
colônia para impregnar elevador
bicho de pelúcia
buquê de miosótis
cirurgia reparadora de epiglote
bodes para rituais
cabras marcadas para viver
coelho de panela da glenn close
fuga de galinhas em 3d
a vida é só um blockbuster
que você não vê
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
às vezes não é só o café fraco requentado num refratário barato
nem o pior filme do mundo na tela de 24 polegadas
não é teu vizinho comemorando um gol
nem o porteiro te avisando que tua encomenda chegou
não é aquela pessoa que te machucou de maneira irreversível
ou aquela que te pergunta quantos anos tem teu cachorro
não é o último gole de conhaque naquele dia quente demais
ou o pijama improvisado com qualquer coisa que saia do armário
não é aquela promessa quebrada pelo teu arquétipo fraco
nem a centésima tentativa de começar uma dieta
não é aquele talk show que destila gramáticas fora de uso
ou o manual de boas maneiras da tua avó
não é o último dvd daquele box do teu seriado predileto
nem a explosão do bueiro que não acertou tua cabeça
não é aquela muvuca ao redor do atropelado
ou a solidão de um idoso no globo repórter
às vezes é você saber
ao fim de uma caixa de lenços descartáveis
decorada com bexigas e confetes
que não é nada
nem o pior filme do mundo na tela de 24 polegadas
não é teu vizinho comemorando um gol
nem o porteiro te avisando que tua encomenda chegou
não é aquela pessoa que te machucou de maneira irreversível
ou aquela que te pergunta quantos anos tem teu cachorro
não é o último gole de conhaque naquele dia quente demais
ou o pijama improvisado com qualquer coisa que saia do armário
não é aquela promessa quebrada pelo teu arquétipo fraco
nem a centésima tentativa de começar uma dieta
não é aquele talk show que destila gramáticas fora de uso
ou o manual de boas maneiras da tua avó
não é o último dvd daquele box do teu seriado predileto
nem a explosão do bueiro que não acertou tua cabeça
não é aquela muvuca ao redor do atropelado
ou a solidão de um idoso no globo repórter
às vezes é você saber
ao fim de uma caixa de lenços descartáveis
decorada com bexigas e confetes
que não é nada
e se você fosse
comigo pro nebraska
seguir a cientologia
de l. ron hubbard
que diz que nos desperta
uma consciência imortal
que diz que nos dá poderes
de deuses gregos
e se você fosse
comigo pra utah
seguir as visões
de joseph smith
tentar a poligamia
evitar o meu ciúme
e o consumo de cafeína
e se você fosse
comigo pra nova york
gritar oh lord
numa igreja do harlem
repetir my lord
numa igreja do bronx
fingir que não somos
turistas
você tem passaporte visto dólar?
oh, shit!
comigo pro nebraska
seguir a cientologia
de l. ron hubbard
que diz que nos desperta
uma consciência imortal
que diz que nos dá poderes
de deuses gregos
e se você fosse
comigo pra utah
seguir as visões
de joseph smith
tentar a poligamia
evitar o meu ciúme
e o consumo de cafeína
e se você fosse
comigo pra nova york
gritar oh lord
numa igreja do harlem
repetir my lord
numa igreja do bronx
fingir que não somos
turistas
você tem passaporte visto dólar?
oh, shit!
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
a gente pensa que se escrever um puta verso ele vai se abalar
mas ele tá com outra
a gente pensa que se apelar pra foto daquela coelhinha da playboy 86 ele vai ceder
mas ele tá com outra
a gente pensa que com uma citação de alguém do século V ele vai ficar nostálgico
mas ele tá com outra
a gente pensa que se tiver uma fratura exposta e uma pá de pinos na perna ele vai se comover
(eles costumam ser fãs de robocop)
mas ele tá com outra
a gente esgota as possibilidades as ideias as unhas os comprimidos
e ele
ele continua com outra
- amor é uma coisa besta -
não pensaríamos duas vezes caso alguma coisa saísse muito errada. e fomos até bastante corretos. sem par ou ímpar. sem melhor de três. sem bilhetes de despedida. sem versos que talvez dissessem:
"de todos esses anos
tirando nossos enganos
até que fomos felizes"
e eu continuo ouvindo rush e me lembrando daquele dia que chamei de sagrado só porque te conheci.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
o mundo vai acabar
e eu ainda não fiz
uma piada sobre o niemeyer
eu tô
veja só
assistindo um programa espírita
alguma coisa sobre carmas
mas pensando em armas
glocks, pra ser mais exata
e em mosquitos
de 9 milímetros
um vizinho arrisca deep purple
em cordas
e eu não sei se é guitarra
ou vem de baixo
eu que parei de acreditar
em caminhões de mudança
e vidas passadas
a limpo
eu que mais uma vez
veja só, mais uma vez
deixei a porta aberta
pro caso de você voltar
e eu ainda não fiz
uma piada sobre o niemeyer
eu tô
veja só
assistindo um programa espírita
alguma coisa sobre carmas
mas pensando em armas
glocks, pra ser mais exata
e em mosquitos
de 9 milímetros
um vizinho arrisca deep purple
em cordas
e eu não sei se é guitarra
ou vem de baixo
eu que parei de acreditar
em caminhões de mudança
e vidas passadas
a limpo
eu que mais uma vez
veja só, mais uma vez
deixei a porta aberta
pro caso de você voltar
domingo, 9 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
a primeira vez que te vi
não teve a teresa
de manuel bandeira
eram minhas as pernas estúpidas
eu andava em l
feito cavalo de xadrez
eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
eu tava descalça
por conta do dedão inflamdo
e do alicate não esterilizado
eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
eu carregava o cartão de um marceneiro
para que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para as três letras
de fim
não teve a teresa
de manuel bandeira
eram minhas as pernas estúpidas
eu andava em l
feito cavalo de xadrez
eu tava com o dedão do pé inflamado
por conta de um alicate não esterilizado
eu tava descalça
por conta do dedão inflamdo
e do alicate não esterilizado
eu pensava num roteiro
prum filme de ação iraniano
eu carregava o cartão de um marceneiro
para que ele derrubasse as certezas
que eu ninava na parte de cima do beliche
eu quis te fazer uma carícia pela metade
e te receitar suplementos vitamínicos
aqueles cheios de abecedário
pra que entre nossas palavras
cruzadas
os espaços fossem grandes demais
para as três letras
de fim
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
quando eu acordo assim
meio hercule poirot
eu procuro na tua assinatura
os três pontos da ordem maçônica
eu penso em desmantelar famílias
claustrofobicamente confinadas
em sessenta metros quadrados
de convivência forçada
eu penso em usar polígrafo
ou estratégias de interrogatório
que merril flood e melvin drescher formularam
em algum momento dos anos 50
mas não esquenta
eu sou só uma velha garota
que procura o zíper
nas fantasias dos inimigos
do spectreman
meio hercule poirot
eu procuro na tua assinatura
os três pontos da ordem maçônica
eu penso em desmantelar famílias
claustrofobicamente confinadas
em sessenta metros quadrados
de convivência forçada
eu penso em usar polígrafo
ou estratégias de interrogatório
que merril flood e melvin drescher formularam
em algum momento dos anos 50
mas não esquenta
eu sou só uma velha garota
que procura o zíper
nas fantasias dos inimigos
do spectreman
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
e se eu te dissesse
que ando mudando os ganchos de lugar
só pra te acusar
de pendurar toalhas no lugar errado?
mesmo assim você ficaria?
e se eu te roubasse
dezessete minutos de vida
te oferecendo um trago
de um cigarro adulterado?
mesmo assim você ficaria?
e se eu ainda me superasse
em técnicas de tai-chi-chuan
para desprezar suas ideias
e te dizer fica zen?
mesmo assim você ficaria?
e se eu não movesse uma palha
pra livrar tua cara
pra te isentar da taxa
do barco de caronte?
mesmo assim você ficaria?
o formulário está preso na geladeira
preencha se quiser
volto às seis
que ando mudando os ganchos de lugar
só pra te acusar
de pendurar toalhas no lugar errado?
mesmo assim você ficaria?
e se eu te roubasse
dezessete minutos de vida
te oferecendo um trago
de um cigarro adulterado?
mesmo assim você ficaria?
e se eu ainda me superasse
em técnicas de tai-chi-chuan
para desprezar suas ideias
e te dizer fica zen?
mesmo assim você ficaria?
e se eu não movesse uma palha
pra livrar tua cara
pra te isentar da taxa
do barco de caronte?
mesmo assim você ficaria?
o formulário está preso na geladeira
preencha se quiser
volto às seis
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