quinta-feira, 23 de setembro de 2010


Depois daquilo, ficou tarde, nós dois tínhamos que ir. Mas foi ótimo ver a Annie de novo. Eu percebi que pessoa incrível ela era e como foi bom apenas conhecê-la; e eu me lembrei daquela velha piada, o cara vai ao psiquiatra e diz "Doutor, meu irmão é louco. Ele pensa que é uma galinha". E o doutor pergunta "Bem, porque você não o convence de que não é?". O cara responde "Eu até o faria, mas preciso dos ovos". Bem, acho que é assim que me sinto em relação a relacionamentos; você sabe, são totalmente irracionais, e loucos, e absurdos, e eu acho que insistimos porque a maioria de nós precisa dos ovos.

Annie Hall. Woody Allen.

terça-feira, 21 de setembro de 2010


E tem aquele olhar de balcão que você me dá. Aquele que diz,
-É, eu sei.
Você sabe. A gente não precisa de mais.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eu assisti aquele filme do Rohmer. Roubei alguns dos diálogos. Ele não vai perceber. São muitos. Vou embalá-los a vácuo para te entregar porque não quero que sinta falta de nehuma vírgula. Nossa história está só começando, é o que vou te dizer assim que você estranhar o pacote em minhas mãos.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Não vai parar. Até você se tocar. Não vai parar. Apenas desista.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010



Uma vez fui fazer um curso de Evolução Molecular no Marine Biological Laboratory em Woods Hole, uma pequena cidade ao norte de Massachusetts. O cronograma era insano, tivemos apenas um dia de folga no qual fomos até Marhta´s Vineyard, a ilha onde John John Kennedy caiu com seu avião. Alugamos bicicletas para conhecer a ilha e eu, conhecendo minha falta de genes para esportes, pressenti que algo não sairia bem. Eu nunca havia utilizado uma bicicleta com marchas, e elas eram dezesseis. Partimos. Eu intercalava as marchas de forma a passar quanticamente do slow motion ao absolutely fast, coisa que nem Chaplin conseguiria. Segui o grupo por algum tempo mas depois fui ficando para trás. Minhas pernas entraram em colapso quando meu cérebro ordenou a cada uma delas uma diferente frequência de rotação. O grupo foi virando um ponto no horizonte e desapareceu. Claro que eu não tinha um mapa e claro que ninguém se importava em parar de fazer cooper ou pedalar para me dar informação. Pedalei, pedalei, pedalei. Fiz uma pausa, exausta, na porta da garagem de uma das mansões e um carro saiu. Teve que parar para não me atropelar.
- Dear sir, for god sake, where is the ferry?
Ele me indicou, mas se esqueceu de falar que havia mais de um porto de balsas por lá. Lá fui eu em direção à balsa errada. Estava um sol de lascar e eu já estava roxa. Pensava na multa que iria pagar pelo atraso na devolução do biciclo. Depois pensei que Dri Dri Brunstein também iria morrer ali. Foi então que uma menina loira, em sua própria bicicleta, passou por mim, parou e voltou.
- Are you ok?
- No, I´m not ok, I´m lost.
- Yes, I know. That´s why I´m here.
- What do you mean?
- Don´t you believe in angels?
Ela de fato parecia um anjo. Disse-me que a função dela era essa, ajudar pessoas. Fez com que eu me refrescasse num daqueles jatos regadores de jardim e depois me levou até a casa de uma senhora, me deu água, suco. Pegou minha bicicleta e a colocou no porta-malas de uma pick-up. Levou-me de volta à balsa certa onde os alunos e policiais analisavam minha ficha de desaparecimento. Isso levou horas, meus caros, foi a travessia de McCarthy. A menina desapareceu. Voltamos para Woods Hole e eu devo ter hibernado tentando interpretar tudo aquilo sob meu ponto de vista científico. Não consegui. Na manhã seguinte, quando entrei na classe exalando Gelol, alguém havia desenhado na lousa um mapa com uma garotinha de cabelos enrolados numa bicicleta e os dizeres:
- Where on Martha´s Vineyard is Adriana?
Foi assim que eu ganhei o Wally Award.
Tem coisas que simplesmente acontecem.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eu quero que você vá embora daqui. Eu vou vender a loja para o supermercado e lhe darei uma parte do dinheiro da venda. Não. Não precisa dizer nada, querido Wilhelm. Espere até não aguentar mais. E não perca a sua inquietude e a sua melancolia. Vai precisar delas se quiser escrever. De agora em diante só viverei dias lindos. Eu vou fumar quando andar na praça. Eu vou beber o meu martini à tarde no Heider Hof, enquanto leio suas cartas. "Com gelo, por favor", direi quando pedir o martini.

Movimento em Falso. Wim Wenders.

domingo, 12 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Quase...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


- Tô com uma fome...
- Eu fiz um feijão com paio, quer?
- Só paio?
- Poxa, pai, pra mim já é uma grande coisa. Você não criou exatamente uma Ofélia.
- Ah, não sei... não tem algum lugar aqui perto pra comer?
- Tem um bar na esquina. A comida é boa e vem bastante. O Tobias pode ir junto.
- Então vamos lá. Me lembra de chamar o Expedito pra arrumar esse fio aqui.
Folheia cardápio vai volta lê relê.
- Moça, eu vou querer esse primeiro prato, mas fala pro cozinheiro que eu não gosto de carne nervosa.
- Como é que é?
- Ele quis dizer que não gosta dos nervos da carne.
- Ah tá.
O Tobias ficou com os 3 ou 4 nervos que ele separou.
- Sabe o que eu queria agora?
- O quê, pai?
- Um cheesecake. Há anos não como um decente.
- Bom, tem lá no Havanna. Vamos?
- Mas não é daqueles massudos, é?
- Sei lá, sei que o doce de leite de lá é divino.
- Mas eu vou querer o meu com calda de framboesa.
No caminho encontramos, eu e seu Simão, Jordão e Wiltão.
- Segura o Tobias aí que eu já volto.
O segurança se aproxima, alguns clientes do shopping se sentiram ameaçados pelo Tobias. Um salsicha.
- Pai, não tinha framboesa mas tinha amora. Tó.
- Hum... É massudo. Eu bem que desconfiei. Uma porcaria.
- Pai...
- Sim?
- Você não existe.
E eu não sei porquê acabei me lembrando da história do tio Cleuso do Nelsinho Peres e sua incansável briga com a lista telefônica.

sábado, 4 de setembro de 2010



- Oi, princesa, será que você pode me ajudar?
- Se for dinheiro eu não tenho, só estou passeando com meu cachorro.
- Nossa, você parece aquela cantora estrangeira, a Jane Jopla (sic).
- É, já me falaram.
- Tchau, minha linda. Sou seu fã.
- Tá, tchau.

Oh, lord, I just want my Mercedes...

terça-feira, 31 de agosto de 2010


- Sei que você fez os seus castelos...
- Erasmo?
- Sim?
- Na boa, dá pra você não cantar isso agora?
- Não posso evitar. E sonhou ser salva do dragão...
- Por favor.
- Desilusão, meu bem, quando acordou estava sem ninguém...
- Olha, acordar pra mim já é uma coisa bem difícil.
- Sozinha no silêncio do seu quarto...
- É bem por aí.
- Procura a espada do seu salvador...
- Nem Dali.
- Que no sonho se desespera...
- Ando tendo pesadelos.
- Jamais vai poder livrar você da fera...
- Eu vou aprender a rezar. Prometo.
- Da solidão...
- Eu rezo em hebraico se você quiser!
- Me dê a mão...
- Vai me levar pra onde?
- Filosofia é poesia é o que dizia minha vó...
- Sem ditados, vai.
- Antes mal acompanhada do que só...
- Você não está nem um pouco preocupado com o que eu preciso.
- Você precisa de um homem pra chamar de seu...
- Pretensão sua.
- Mesmo que esse homem...
- Vai desaparecer bem agora? Eu ainda não terminei. Você ainda não terminou. E aquela coisa de secar meu pranto? Volta, vai. Canta aquela que diz que eu sou sua superstar...

O mundo anda um lugarzinho bem estranho. E o além se limita a avisar que as definições de vírus foram atualizadas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da série "Por que eu ainda escrevo se alguém o faz melhor e eu posso tungar dos amigos?"

O Divisor - Edwin Morgan

Continuo pensando em você – o que é ridículo.
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
impediria meu lápis sobre o papel.
O som estava ligado; você pediu pelos Stones;
conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.
As cortinas cerradas guardam uma noite selvagem.
Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.
Não há razão para isto, nenhuma.
Você diria que não posso ser o que não sou,
mesmo que não possa estar onde estou.
Onde isso nos leva? O que podemos fazer?
O silêncio após Jagger foi como uma capa
que eu teria jogado sobre você – havia apenas
o vento, e o relógio batia enquanto você bebia,
agarrando a caneca verde entre as mãos.
Não olhe para cima assim de repente!
Como é duro não olhar você.
Chegamos ao ponto de não falar
e não se preocupar, e aquilo
foi quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou sobre o cotovelo no carpete
não senti nada além de uma punhalada
de dor me dizendo o que era,
e não posso dizer para você, nem uma palavra.

terça-feira, 24 de agosto de 2010



ESCRITÓRIO.INT.DIA

Sol. Calor. O gato estirado na mesa. Branco. Dor de garganta. Dor. Desejo de estar no ano passado. Abolindo pontos de exclamação e abusando de reticências. De gerúndios. Conto os cabelos brancos. Tenho quase quarenta. Anos. Desejo de voltar ao ano passado. O telefone toca e em off alguém pede uma doação. Eu tenho muito pouco, explico o que já perdi. Em off o alguém desliga. Sinal de ocupado e nó na garganta. Penso em Linda Lovelace. Que tudo é biodegradável. Menos o domingo. Desejo de desaparecer no ano passado.

FADE OUT

sábado, 14 de agosto de 2010

Nos livros de McCarthy todo o movimento parece estar relacionado a passos, trotes de cavalos. Os diálogos são sucintos, às vezes impassíveis de uma compreensão imediata. No entanto, algo fica ressonando, ecoando, e quando você se dá conta já está totalmente tomado por um universo sem vírgulas, erguido entre silêncios. Foi sobre isso que falei na minha primeira aula do curso de roteiro. Universos. Já fiz de tudo para tentar compreendê-los. Um dos alunos deliciosamente duvidou que eu tivesse feito física na faculdade. E começamos a criar uma história, partindo de uma ilustração aparentemente estática de HQ. Estavam presentes 18 alunos (que eu já considero roteiristas, pois estava um frio de lascar), com idades de 17 a 60 anos, e de repente já havíamos criado um mundo para um protagonista que teve sua vida esmiuçada e invadida sem dó. E foi muito gratificante ter proporcionado a cada um sentir o gosto do incurável vício na ficção. Tomara que todos voltem, que outros apareçam, que comecem a enxergar o que não está exatamente visível, a ouvir o que cada boca na rua fala. Em duas horas semanais a gente vai fazer um estrago.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

E fico com essa impressão de que nunca fiz mal a alguém.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Oficina de roteiro para cinema

Biblioteca de São Paulo oferece
oficina de roteiro para cinema



Aulas gratuitas estimulam participantes a criarem situações para curta-metragem.
Os textos produzidos terão leitura dramática feita por atores.




A Biblioteca de São Paulo, espaço cultural do Governo de São Paulo administrado em parceria com a Poiesis - Organização Social de Cultura, promove a Oficina de roteiro cinematográfico nas terças-feiras 10, 17, 24 e 31 de agosto, às 19h. Adriana Brunstein é a responsável pelas atividades, que tem como objetivo fazer com que os alunos desenvolvam um roteiro de curta-metragem a partir de histórias próprias.



Dividida em duas partes, a oficina trabalhará primeiro com exercícios que garantam a fluidez de pensamento, estimulando a criatividade sem se apegar a amarras estéticas ou regras pré-estabelecidas. Com a história pronta, os alunos partirão para a segunda etapa, que é a visualização do filme. Desta vez, serão apresentadas as técnicas de roteiro - storyline, sinopse, escaleta e roteiro pronto – para permitir o conhecimento acerca de cortes de cena e opções de filmagem, entre outras atividades ligadas a concepção cinematográfica. Os roteiros escritos ganharão leitura dramática feita por atores. Análises de filmes clássicos e modernos, assim como indicações de leituras e utilização de programas específicos de confecção de roteiros no formato master scenes completam a programação do evento.



Escritora e roteirista, Adriana Brunstein é a dramaturga responsável pela peça Flores de Asfalto, encenada em 2008, durante o festival Satyrianas, e por roteiros de curtas-metragens como Olhos de Fuligem, apresentado no 13º Cultura Inglesa Festival. No mesmo ano, ganhou o prêmio HQMix de melhor roteirista nacional com o álbum Prontuário 666 – Os anos de cárcere de Zé do Caixão. Adriana também colaborou no roteiro de Encarnação do Demônio, filme de José Mojica Marins.



As edições do evento são gratuitas. Vale lembrar que a entrada na BSP é feita mediante apresentação das carteirinhas de visitante ou usuário, que podem ser solicitadas na recepção.



Serviço

Inscrições na recepção da Biblioteca de São Paulo a partir de 31 de julho. Podem ser feitas inclusive no dia 10, antes do início do curso.

Oficina de roteiro cinematográfico
Dias 10, 17, 24 e 31 de agosto, às 19h

Biblioteca de São Paulo
Parque da Juventude
Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Santana – São Paulo (SP)
Tel.: (11) 2089-0800

Site: www.bibliotecadesaopaulo.org.br
Blog: www.bibliotecadesaopaulo.blogspot.com
Twitter: www.twitter.com/spbiblioteca

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O cara disse que não ia demorar muito, mas pelo cano alto das botas que ele usava eu desconfiei. Três cafés e meio pão com mortadela. Uma cachaça de 1,50 e um prato de tremoços.
-Você paga.
Saquei uma nota de 20 da carteira.
-Então vai ser amanhã?
-Logo cedo.
-E como eu fico sabendo que tudo correu bem?
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
-Então assim que eu...
-A gente sempre sabe quando tudo corre bem.
Levantei-me e ensaiei um até logo. Ele palitava os dentes. O sol acertou minha nuca em cheio. Era pouco mais de meio dia e eu pensava em que fim levou o Minister.

quinta-feira, 15 de julho de 2010


E aí as coisas vão rodando em espiral, para a direita ou para esquerda, dependendo de que América você está. Na Central as coisas devem descer em uma sem graça linha reta. Por alguns poucos reais você compra um protetor de ralo. Aquela redinha metálica que fica encrustada de arroz. Caso um grão de feijão cru seja esquecido no pequeno reservatório-peneira ele brota. Vale observar esse curioso fenômeno caso sua infância não tenha te dado como lição de casa fazer brotar pé de feijão numa bola de algodão. Para tirar essa pechincha do ralo você precisa de unhas ou de uma faquinha. Cuidado no manejamento, senão todo conteúdo pode vasar, pela direita ou pela esquerda, e fluir pelos canos da cidade. Macarrões são extremamente aderentes e, como lagartixas, deixam soltar um pedaço para que o resto se salve. Um triturador de lixo custa em torno de 1000 reais. Você pode pagar em até 5 vezes mas ele jamais te levará à galinha dos ovos de ouro.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pot Talk



Madrugada.
- Meu, o Mirisola é a única pessoa no mundo que ainda usa o yahoo!
- O que você acha de "com tua lã macia e berne"?
- Berne? O verme?
- Não! É um pano vermelho.
- Sério? Eu pensei em sapinho ou coisa do gênero.
- Era produzido na Irlanda.
- Mas as pessoas vão saber isso?
- Se não souberem pelo menos fica instigada a curiosidade da busca.
- Eu não contaria com isso, ainda penso em brotoejas.
- Tá bom, vai. Deixa eu trabalhar.
- Vamos por no google?
- O que?
- A berne.
- É o berne. Substantivo masculino.
- Tá, então vamos por o berne no google?
- O google é uma merda. Abre o Houaiss online aí.
- Boa! Pronto.
- Como é que você fala Houaiss?
- Eu falo RAUAIS. Mas tem gente que fala ROUAIS. Ou RUAIS.
- Sei lá. Eu não pronuncio o H. Qual a origem desse nome?
- Bom, se ele fez um dicionário de português deve ser portuguesa, né?
- !!!!
- Ah! Coloca ele nele mesmo!
- O quê?
- Coloca Houaiss no Houaiss.
- Tá falando sério?
- Claro. Ele vai dar origem, etimologia, data, aquela coisa toda.
- Se eu colocar você fica quieta?
- Fico.
- Então tá. Coloquei.

A palavra houaiss não foi encontrada.