você sabia, né, meu bem? eu coloquei aquela minha velha capa do mandrake e vomitei meia-dúzia de profecias enquanto girava a cartola com a mão esquerda. adquiri habilidades ambidestras, te contei? acabei batendo boca com um daqueles peruanos que vendem cd´s com versões horríveis de simon e garfunkel só porque tentei convencê-lo a montar um negócio de bungee jump no viaduto beneficência portuguesa. ele me disse que era do chile ou coisa assim e que eu tinha cara de agente da imigração. você me conhece, isso de colocar cara em mim me tira do sério. você precisava ver, juntou uma multidão, era horário de pico, cheio de gente afoita pra pegar o metrô e voltar pra casa. na hora que a coisa ficou feia de verdade eu fui embora. não vou mentir, me deu um certo pânico e quase senti um batalhão atrás de mim. mas eu nem olhei pra trás. subi os dois quarteirões até a rua de casa e bem na esquina dei um duplo mortal caindo em parada de mão. habilidades ambidestras deixam qualquer lição de vida no chinelo.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
faltavam poucos minutos para o início do noticiário e o ar estava úmido demais. ela desceu as escadas se apoiando no corrimão, se aproximou dele e disse, estou com um gosto estranho na boca. ele coçou o queixo, aquela loção pós-barba era de péssima qualidade. o puto do cachorro abanava o rabo para a parede vazia e ela explicou, ele vê coisas. foi então que o âncora anunciou ataques incendiários em londres e ele sentiu uma gota de suor escorrer pelo rosto. saía bem do meio da testa.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
E se eu realmente me importasse com o que você me diria agora, eu traduziria suas palavras como a fácil lição de encarar um recomeço de minha vida. Eu sei, você não me falou nada. Você simplesmente não se importa com aquilo que orbita ao redor de planetas outros que não seu umbigo. Sua trajetória é rasa e previsível. Como um estúpido recomeço. Mas eu não me importo com você nem com sua ideia rasa e previsível de que tudo está de acordo com o que lhe foi padronizado como conceito de adaptação pelos seus ancestrais e seus autores de cabeceira. E se coubesse a você a permissão para que eu discorresse agora sobre o que eu chamei antes de minha vida eu recusaria. Mas não cabe. Da mesma forma que não cabe a mim recomeçar o que nunca começou. Você não é nada mais que um daqueles amaldiçoados quadros de crianças que choram. Se te viram de ponta cabeça, se te invertem num espelho, se te inclinam poucos graus para a direita ou para a esquerda, você vai ver que está sendo devorado por um impiedoso e grotesco monstro, enforcado pelas mãos da sua mãe ou aliciado por seu socialmente exemplar vizinho. E tudo que cresce, porque tá fora do seu controle, são suas unhas e seu cabelo.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
comprei um tanque de propano e meio quilo de pólvora numa das filiais daquela megastore de materiais de construção. qualquer site liberado pelo AVAST ensina a fabricar bombas caseiras e qualquer romance meia boca acaba com essa palhaçada de amor. a coisa por aqui está assim, num enorme painel de cortiça estou pregando todos os meus planos (te agradeço por ter levado aquele quadro horroroso. eu o cobria com um lençol quando você saía) e atualizando as etapas com aquela BIC quatro cores. O verde vive falhando, mas não encare isso como um obstáculo. eu escrevo em vermelho e uso um asterisco que deixa bem claro, isso é verde. eu venho fazendo isso o tempo todo, desde que recuperei a capacidade de discernimento que você me tirou. um dia você irá acordar com uma bomba algemada no seu tornozelo. a bomba que eu construí pra você. fique tranquilo, você só vai ter a sensação de que o despertador tocou antes da hora.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Há garotas que sabem dar o melhor de si, que se permitem trazer uma sacola de papel com um verdadeiro tesouro: vodca decente, pão francês, cigarros e balas de hortelã, e também comprimidos pra ressaca. Elas sabem que você é um prisioneiro e não um paspalho que se faz passar por artista, e se não sabem, pelo menos fingem com graça.
Garotas que ajudam a enxotar o cara do aluguel, que pegam a correspondência e jogam fora sem abrir porque são espertas, sabem que gente como você não recebe cheques de fundações, revistas nem cartões de Natal, que o mundo lá fora só quer encher o seu saco. Elas não dizem que você é infiel, dizem que você se vira como pode
Garotas que coçam as suas costas e não fazem perguntas inúteis. Garotas que qualquer um, menos você poderia amar e com isso estragar. Elas não precisam de um marido ciumento, não querem o yuppie amável que rala a bunda para ganhar umas migalhas. Elas se entregam ao prisioneiro, ao cara que bate a porta e apaga este mundo nojento com seus poetas sob medida e suas putinhas honoráveis. Garotas capazes de limpar persianas sem fazer comentários, que sabem quando é hora de ir embora e que jamais levarão uma estúpida flor ao seu túmulo.
Brindo a elas.
Soa como uma velha canção - Efraim Medina Reyes
terça-feira, 9 de agosto de 2011
eu vou legendar um filme inteiro em alemão pra você não entender. colocarei tremas sob as letras erradas e inverterei as falas, vou contar a história do final pro começo com um pequeno intervalo forçado aos 34 minutos que tornará as coisas ainda mais inverossímeis. um sutil curto-circuito e a tecla stop não funciona mais. eu não levo pilhas oxidadas a nenhum centro de coleta. continuam todas aqui, espalhadas pelas gavetas num sistema aleatório de distribuição. Ende.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
você faz um gargarejo com listerine para dissolver um bolo de algas preso na garganta e aprende que girino em inglês é tadpole. há uma gambiarra indetectável no encanamento do seu banheiro e você sabe disso pelo sorriso sarcástico do antigo zelador que você observa pela pequena angular do olho mágico. ele se casou pela segunda vez e abandonou o par de gêmeos porque não tinha como distingui-los. o aspirador incrível que você parcelou no cartão de crédito não alcança os cantos senoidais projetados pelo estagiário do niemeyer e suas plantas artificiais andam estranhamente atraindo insetos. o sistema de alarme é precário mas você tem a impressão de que ele vai disparar a qualquer momento. você tem bem mais que doze problemas bucais.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
eu costumava ouvir neil young e ler caio fernando abreu. coisas como "eu constantemente sinto saudade das coisas que perco mas não as quero de volta. já doeu uma vez", assim que você partia. aí eu me arriscava nos horóscopos inventando ascendentes que eu não tinha. e sempre dizem, tem que ver a lua também. a lua. eu não me importava muito com aquela cara de cartão postal da lua. a lua pra mim sempre serviu para iludir cachorro desavisado ou mote para falarem do outro neil, o armstrong. e eu até falaria dele, pro tempo sem você passar. eu tocaria a campainha da vizinha do 63 com um pretexto qualquer. um abaixo-assinado solicitando a instalação de uma antena parabólica capaz de captar a transmissão de uma rádio-novela inédita de h. g. wells onde recuperam, no penúltimo capítulo, as últimas cartas que trocamos.
domingo, 31 de julho de 2011
ele ficou parado olhando para a rua como se um búfalo lhe impedisse a passagem. como se o laço que não tinha em mãos fosse curto demais. como suas pernas e aquela lembrança de bolinhos saídos do forno roubada de proust. uma vez, e isso fazia um bom tempo, enfiara um lápis nas costas de um colega de classe. pensou em, quem sabe, voltar a vê-lo e contar que havia comprado um telescópio e observara por horas a trajetória de um balão meteorológico. o búfalo mexeu por um instante a pata dianteira mas não saiu do lugar. parecia até maior.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
ele ficou olhando para a bacia cheia de cebolas. depois pegou uma por uma e descascou. ela entrou e perguntou, por que fez isso? ele não respondeu e ficou olhando para a bacia cheia de cebolas descascadas. ela foi jogando suas roupas pela sala e em seguida os sapatos. aí ele empilhou as cebolas descascadas, montou uma pirâmide e gritou, venha ver o que eu fiz, mas ela prestava atenção em outra coisa. quando ela acordou as chamas já tomavam toda a cozinha.
terça-feira, 26 de julho de 2011
"A maneira certa de se engolir um guarda-chuva é pela parte de cima caso você se preocupe em manter o mínimo da integridade dos seus órgãos. Mesmo que o sabor não seja de seu agrado é pertinente que você controle sua ânsia ou o processo será fatalmente revertido. Evite utilizar aqueles com acionamento automático". Ele disse isso como quem lê um manual de eletrodoméstico ou prega para meia dúzia de descrentes. Aí saiu. Olhou para o céu e estendeu a mão direita com a palma voltada para cima. Usava um terno preto tingido de bolor que fora, ele disse, de seu pai. Tranquei a porta e conferi a previsão do tempo para os próximos cinco dias.
domingo, 24 de julho de 2011
ele disse que se fôssemos pescar aprenderíamos muita coisa sobre a vida e sobre nós. pesca mortal. ele vinha acompanhando o programa desde que a tal operadora de TV a cabo oferecera quinze dias a título de degustação. eu tinha dez minutos até o mercado baixar as portas e um velho all star nos pés. deixei sobre a mesa da cozinha uma lata de sardinhas em óleo comestível e um bilhete. cuidado com as espinhas. foi o que eu pude fazer. e eu tenho essa mania de nunca olhar para trás.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
olha, ele disse enquanto se ajeitava no sofá, amanhã vou embora. ela pensou na consulta que teria com a nutricionista logo cedo. perderia oito quilos ainda antes do verão. ele continuou segurando sua mão e quase disse, vai ser melhor assim. há sete anos tiveram o primeiro filho. depois o segundo. aí ela arrumou aquele cara e ele descobriu e disse, querida, você estragou um bocado as coisas. nunca mais tocou no assunto. era importante ela se lembrar de avisar a nutricionista que sofria de doença celíaca.
terça-feira, 19 de julho de 2011
ele ficou olhando para a borda virada do tapete e depois olhou para a porta. pensou em comprar um exterminador elétrico de mosquitos e uma ratoeira ultrassônica. queria se chamar steve mcqueen e contar para sua vizinha sobre seus dias no cárcere. ele diria, entre, é só tomar cuidado com as armadilhas. colocaria o pé sobre a borda virada do tapete caso ainda não a tivesse ajeitado.
sábado, 16 de julho de 2011
sexta-feira, 15 de julho de 2011
PRECEITOS BÁSICOS E AVISOS ADICIONAIS A JOVENS ESCROQUES
Jim Dodge
Não tente roubar uma vaca maior que sua caçamba.Não mostre seu rabo pra Polícia Rodoviária.
Negociatas longas com grana curta é prejuízo na certa.
Não confunda o Evangelho com a Igreja.
Nunca dedure familiares ou amigos.
Evite morar em qualquer lugar onde não dê pra mijar da porta da frente.
Só porque é simples não significa que é fácil.
Não deixe seu olho grande preencher cheques que sua barriga vazia não possa bancar.
Se você não a quer, não a provoque.
Não estacione entre dois cachorrões jogando sujo.
Qualquer um amassa tomates; o foda é fazer o molho.
Nunca se é pobre demais para deixar de prestar atenção.
Não remoa por aí suas paranóias.
Nunca durma com uma mulher que considere isso um favor.
Se for atingido por um valentão, dê-lhe a outra face.
Se rolar de novo, atire no filho da puta.
Manter é sempre duas vezes mais difícil do que conseguir.
Nunca atravesse uma cidade pequena a 120 por hora com a filhota do xerife nua na garupa.
Nunca registre o preto no branco.Se você não está confuso então não tá entendendo nada.
Amar é sempre mais difícil do que parece.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
eu apoiava a cabeça assim no teu colo e te perguntava sobre a guerra do golfo. você dizia antes as coisas eram diferentes e me contava como o marechal alemão Erwin Rommel fora detido em 1941. você fazia um teatro de sombras antes de falar apague o abajur e vamos tentar dormir. eu nunca entendi como você conseguia projetar aquela tarântula na parede, aquela que você explicava, não é tarântula é uma viúva negra. eu era uma péssima taxidermista e você pode ter confundido com desinteresse. e enquanto eu fingia que dormia você se levantava e observava a chuva pela janela. passava horas parado ali. eu devia ter te dito, vai ficar tudo bem, deita aqui comigo.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
baby, tô em ponto morto. você entende, não é? tô pegando só ladeira pra baixo que é pra nem pensar no aumento da gasolina ou no licor de qualquer porra de fruta tropical que resolveram misturar à vodka. lembra daquela passeata solitária que fiz no meio da sala a favor da ingestão de bebidas puras? pois é, baby, não mudei muito. ainda acordo com a cabeça estourando e juntando flashes da noite anterior. flashes. como se eu fosse uma espécie de godard, olha a merda. mas passa rápido porque inevitavelmente eu penso no renato russo e naquela baboseira de eduardo e mônica. é, eu continuo odiando legião urbana e josé saramago. e eu não vou tentar mudar nem uma coisa nem outra só porque os caras não estão mais por aqui. não quero aprender mais nada, seja real ou do além. se um dia eu precisar de alguma ação eu paro um policial na rua e peço uma revista. daí eu o processo por assédio sexual através de um desses advogados reprovados no exame da OAB. só pra ver o que não acontece. eu continuo a melhor espectadora da vida. eu assisto o mesmo telejornal duas vezes por dia e finjo não perceber que espancamentos e acidentes de trânsito têm pautas maiores na edição noturna. e que continuar te amando é pura preguiça de minha parte. é, baby, tô em ponto morto.
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