nas manhãs que acordo sem você são dois jatos de aerolin. olha só, eu me empolgo com situações de desespero e fico tateando no escuro até encontrar a bombinha. derrubo um bocado de coisas e as pilhas ejetadas do controle remoto seguem em movimento browniano até a parede. e eu me lembro daquele diálogo de sunset boulevard, quando joe gillis diz a norma desmond, você é norma desmond. você costumava ser grande. ela responde, eu sou grande, as fotos é que são pequenas. aí joe fala, eu sabia que havia algo errado com elas. algum tradutor achou isso tudo divino demais e chamou de crepúsculo dos deuses. e eu ando com muita coisa na cabeça para me lembrar se crepúsculo é o nascer ou o pôr do sol. não, não é isso. a bem da verdade, eu não tenho aberto as cortinas desde que tive a sensação de você estar escondido atrás delas. você sabe, fator surpresa é um tema estudado à exaustão na psicoterapia.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
em exatos cinco anos você vai me escrever. você vai escolher uma mídia qualquer porque você nunca encontra as bics que rolam pra debaixo da estante. você vai dizer que nós violamos tudo que foi dito sobre magnetismo, de tales de mileto a maxwell. que devíamos ter ficado juntos e completado aquele álbum de figurinhas que dava prêmios. que aquela discussão ridícula na fila do caixa do walmart foi nosso melhor disfarce. acabamos nos assustando, não um com o outro, mas com nós mesmos e nossa incapacidade de perceber o timing correto para dizer eu te amo. hoje, sem você, eu me assusto com os barulhos estranhos da geladeira frost free e me pego ouvindo nelson gonçalves sentada no banquinho de madeira que eu comprei de um cara numa kombi. eu tive sorte. logo depois alguém gritou olha o rapa e ele arrancou com tudo.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
eu te avisei tantas vezes, odeio saramago, e você o embrulhou pra presente. eu coloquei um x em cada opção do pacote, mudou-se, endereço insuficiente, não existe o número indicado, falecido, desconhecido, recusado, ausente, não procurado, outros (especificar). nesse último ítem eu quis escrever que os aedes aegypti machos foram geneticamente modificados e morrem antes de atingir a idade de reprodução. o carteiro não achou isso lá muito plausível e eu argumentei, oras, e que plausibilidade existe em "O presente que demos ao primo maximiliano, quando do seu casamento, há quatro anos, sempre me pareceu indigno da sua linhagem e merecimentos, e agora que o temos aqui tão perto, em valladolid, como regente de espanha, por assim dizer à mão de semear, gostaria de lhe oferecer algo mais valioso, algo que desse nas vistas, a vós que vos parece, senhora, Uma custódia estaria bem, senhor, tenho observado que, talvez pela virtude conjunta do seu valor material com o seu significado espiritual, uma custódia é sempre bem acolhida pelo obsequiado, A nossa santa igreja não apreciaria tal liberalidade, ainda há de ter presentes em sua infalível memória as confessas simpatias do primo maximiliano pela reforma dos protestantes luteranos, luteranos ou calvinistas, nunca soube ao certo, Vade retro, satanás, nem em tal tinha pensado, exclamou a rainha, benzendo-se, amanhã terei de me confessar à primeira hora, Porquê amanhã em particular, senhora, se é vosso costume confessar-vos todos os dias, perguntou o rei, Pela nefanda ideia que o inimigo me pôs nas cordas da voz, olhai que ainda sinto a garganta queimada como se por ela tivesse roçado o bafo do inferno"? foi engraçado. ele tentou correr sem derrubar os cartões de natal.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
o coração assim, espatifado no triturador da pia. foi um vacilo meu. das inúmeras vezes que você me falou cuida do que é teu eu só ouvi uma. e eu fiquei olhando aquele peixe estrebuchar no chão enquanto ouvia roxy music, shake your hair girl with your ponytail, takes me right back, when you were young. aí me pareceu que o terceiro juiz consideraria a luta encerrada e por conta disso eu seria obrigada a prestar serviços comunitários. ele tinha de fato cara de ativista do green peace e um leve cacoete no olho esquerdo. bem, eu comecei a rir, não do cacoete, nessas horas eu até sou politicamente correta, mas é que me lembrei daquela piada que você contou inúmeras vezes. e eu ouvi todas elas. eu sabia que num certo momento você se perderia e improvisaria daquele seu jeito, mudando o nome dos personagens, o cenário do segundo ato e a umidade relativa do ar. mas você mantinha o mesmo final. sempre. esse eu nunca entendi.
(Para Paula Klaus)
(Para Paula Klaus)
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
eu queria mesmo não te imaginar naquela sunga gasta tostando à beira de uma piscina num churrasco pré-fabricado qualquer. cercado de pessoas exageradamente vermelhas com poros dilatados que fazem piadas sobre o defunto do Kadaffi e mendigam atenção de um espantalho torto. eu queria ainda não ver você afastando a fumaça da carne de segunda pra tentar sonhar à noite com a garota de biquini amarelo que o tio do seu vizinho ganhou na porrinha. ela parece retribuir seu olhar mas instalou uma armadilha para ursos bem na metade do caminho. aquele lá no canto, com um amuleto amarrado no tornozelo, lamenta jamais ter entendido o paradoxo de braess e passou dois terços de sua vida num congestionamento. alguém corre atrás de uma boia de zebra sem válvula que rola livremente pela grama. eu invento coisas demais pra te esquecer.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
coisas repetitivas. uma sílaba qualquer que não se encaixa em nenhuma outra e fica ressonando bestamente na sua cabeça. bill buford, um repórter da bbs, se infiltrou entre os hooligans só pra ver qual era e acabou ficando por quatro anos. disse que a adrenalina era tanta que era impossível se livrar dela. quer saber? pra mim esse tal de bill buford definiu mesmo foi o amor. isso mesmo. as duas sílabas do amor. e se você quiser uní-las com hormônios, neurotransmissores ou aminoácidos aromáticos modificados eu não me importo. isso não vai tornar as coisas mais difíceis pra mim. mais difíceis do que já são, eu quero dizer. uma amiga escreveu assim:
"tudo o que dói transbordao choro contido irrompe pelas mãos
descarna antigas feridas que te revelam
enquanto a face plácida oculta a aflição
tudo o que fere te faz verter
os fluidos te roubam a noite mais uma vez
e a vida se esvai pelos poros"
e eu achei a coisa mais bonita do mundo.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
ele pendurou o gancho fixador de quadros command da 3m, ajustou a corda de nylon polimet 0045 num nó de escota duplo e posicionou abaixo do nó a banqueta para cozinha milano 176. mas havia se esquecido que o antigo proprietário rebaixara exageradamente o teto com três sacos de 40 kg de gesso mvs revest. então ligou a TV. haviam trocado a apresentadora do shoptime. essa sim, aceitaria seu convite para jantar e se deliciaria com o frango totalmente crocante assado na portátil rotisserie house e depois destroçado com a faca athus que veio de brinde. e aceitaria de bom grado o anel em ouro com diamantes que ele recém adquirira no medalhão persa.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
saladas prontas para consumo embaladas à vácuo em sacos plásticos. códigos de barra não cadastrados pelo funcionário hipermétrope que bate punhetas canhotas para a caixa número sete. a velhinha que furou a fila do exame médico do sesc pompeia ri do estranho tubérculo em forma de mandrágora e resolve comprar velas (e olha só, ela também fura a fila preferencial alegando uma missa urgente na igreja de são judas). e eu peço ao rapaz do atendimento ao cliente, ex-funcionário do tribunal de pequenas causas, uma nota fiscal discriminatória dos últimos meses. ele disse que eu talvez possa reclamar no procon tua propriedade (e olha que engraçado, ele parecia proudhon).
terça-feira, 11 de outubro de 2011
tô soltando o freio e engolindo frases de autoajuda. são como fibras, saca? elas se juntam num bolo amorfo que não é absorvido pelo organismo e seguem um longo e merecido destino cano adentro. e eu fico imaginando a sabesp entrando nessa onda de greve e augusto cury flutuando em pepitas de ouro logo pela manhã. e você sabe, logo pela manhã bom dia já me parece uma ofensiva frase de incentivo. e eu não sei se agora devo me encher de constrangimento ao devorar um virado à paulista porque passou a ser patrimônio histórico. por que não tombam o amor do jeito que é expresso nos filmes do kar wai? fico pensando numa pá de assuntos que me tiram o sono pra depois descobrir que exageraram um bocado na quantidade de suicidas devido ao crack da bolsa em 1929. bolsa de valores. taí uma coisa que, ao contrário do suicídio, eu nunca entendi.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
o homem de braços curtos pagou dez e noventa naquele fascículo em promoção. ele queria montar o navio bismarck com seu leme travado para bombordo e esperar pela royal navy. e comprou cola para madeira e tintas coloridas e uma pequena serra de mão. encheu a banheira e afogou o pato amarelo de borracha até as bolhas cessarem. a água estava um pouco quente, então ele teria tempo de procurar a velha boina puída socada - e ser então o último boy scout - em algum armário alto demais. numa garrafa pet de setecentos e cinquenta mililitros deixaria um bilhete para ela com palavras que nunca havia dito.
domingo, 2 de outubro de 2011
você concatena palavras como se fizessem sentido. não é assim, meu bem. há toda uma coisa de acepção, etimologia, origem e juntá-las assim, só porque existe concordância verbal, chega a ser ofensivo. você costumava rir da minha inabilidade em montar bonecas matrioska e na verdade eu estava pouco me lixando pra rússia, pra antiga união das repúblicas socialistas soviéticas, pra são petersburgo ou pra qualquer lugar em que as pessoas estivessem falando uma língua estranha e fazendo algo diferente de matar o tempo sem você, como eu fazia. olha, eu te amo, e tua ausência é a coisa mais presente que eu tenho. joguei todos os dicionários na lixeira de recicláveis e me diverti por alguns minutos tentando encaixar retângulos de mil páginas em cilindros vermelhos. tenho que subir meio lance de escadas até lá, você sabe, e eu contei oito degraus. lá pelo quarto achei que acreditaria em você, mas existem superstições que simplesmente não funcionam.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
é que tem coisa que me derruba e eu não tô falando de um uppercut do cassius clay nem de tropeçar em pés descalços largados no meio da calçada. é como se o placar da minha pressão exibisse o escore 9 X 5 nos trinta e dois segundos finais do campeonato. tem uma cama adaptada aqui para acomodar meu amor deficiente que ainda não aprendeu a ler em braile.
sábado, 24 de setembro de 2011
se enfiasse, então, a cabeça no forno, assim que retirasse a grade do meio, deixaria um bilhete no bolso traseiro. mas as coisas andavam um tanto enferrujadas por lá e movê-las demandaria um pouco mais de paciência (já não tinha). fora que a porta da cozinha era daquele estilo faroeste, uma ideia dela para tornar tudo mais dinâmico (ela, que dormia nos filmes do sergio leone). então ele tirou o enorme frango do congelador, ligou o gás e sentiu uma pontada de prazer quando a primeira gota de gordura se desfez na chapa quente.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
pegou uma fita métrica e mediu o comprimento e a largura da sala. depois sua própria altura. pensou no capitão américa com aquela enorme estrela no peito e numa garota debruçada na janela. escreveu uma nota de óbito numa embalagem de pão e tentou montar um anagrama para carboidratos. alimentou a planta carnívora com restos de um coração transplantado. a orelha de holyfield o impressionava muito mais que a de van gogh e ele soltou uma gargalhada que se confundiu com o frouxo ruído do velho ventilador.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
engarrafamento monstro, saca? eu louca pra te ver, tudo regularizado, respeitando rodízio de placas e ouvindo CBN. às vezes eu tenho essa vontade de saber o que anda acontecendo no mundo pra discutir com você. ou pelo menos fingir que eu estou por dentro das coisas pra você fazer aquela cara de quem se surpreende comigo. que diferença faz, não é? a gente sempre manda o mundo às favas e escuta muddy waters. mannish boy. traduzi a primeira estrofe assim de sopetão. ficou meio esquisita com meu inglês científico demais. mas eu não fico mais cheia de dedos com nada. nesse exato momento eu tô sentando a mão na buzina para que as coisas se movam e eu te conte em primeira mão sobre o incêndio em singapura. é longe pacas, eu sei. mas quer saber? o mundo cabe direitinho naquele velho globo que você tem na sua sala. abri o vidro, a moça me deu um folheto de apartamento que eu transformei num bi-motor. ele deve chegar aí antes de mim. abra com cuidado, tenho a impressão de ter despachado meu coração junto.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
aprendi um bocado preenchendo palavras cruzadas de jornais. chamo de destino quando carro de boi encontra letargia num cruzamento vertical e cá entre nós isso não significa nada. isso de destino, quero dizer. ninguém colou um treco na minha testa e disse mantenha-se em tua casta e tudo ficará bem. aliás nunca ninguém me disse nada mais importante que 6-horizontal-dois sintomas da alergia aguda alimentar. eu saio revirando tudo quanto é dicionário e consultando sites privilegiados por search engine optimization. dopamina. é assim que eu tô levando a coisa. todos os dias.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
não desisto dos meus vícios. nem daquele box de filmes do stallone que ainda está lacrado ao lado da pilha de louça suja. a vida deixou de ser biodegradável faz tempo, baby. enchi o chão de tachinhas porque o que aqueles malucos lá da índia fazem ainda me parece um truque tosco. os armários em cima da nossa antiga cama estão emperrados. dobradiças de metal. o panaca que inventou isso não pensou sequer na possibilidade de que as coisas enferrujam, que no ar que ele respira há um componente responsável por oxidação. ele, na sua pressa de ser eternizado pela porra de uma patente, sequer pensou que no armário em cima da nossa antiga cama há um isopor com doses cavalares do amor que a gente estocou. dessa vez eu estou realmente com medo que estrague tudo. quanto tempo duram coisas imersas em nitrogênio líquido, você sabe?
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
“Rédea”, digo. Levanto a rédea na janela e olho para ela sob a luz. Não é uma peça decorativa, é só uma rédea velha de couro escuro. Não sei grande coisa sobre rédeas. Mas sei que uma parte encaixa na boca. Essa parte é chamada de freio. É feita de aço. As tiras dão a volta pela cabeça do cavalo e sobem até onde ficam seguras entre os dedos do cavaleiro, no pescoço do animal. O cavaleiro puxa as rédeas para um lado e para o outro, e o cavalo vira. É simples. O freio é pesado e frio. Se a gente tivesse de usar um negócio desse enfiado nos dentes, acho que ia entender rapidinho. Quando sentisse puxar, a gente ia saber que estava na hora. A gente ia saber que estava indo para algum lugar.
A rédea. Raymond Carver. Trecho final.
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