tô soltando o freio e engolindo frases de autoajuda. são como fibras, saca? elas se juntam num bolo amorfo que não é absorvido pelo organismo e seguem um longo e merecido destino cano adentro. e eu fico imaginando a sabesp entrando nessa onda de greve e augusto cury flutuando em pepitas de ouro logo pela manhã. e você sabe, logo pela manhã bom dia já me parece uma ofensiva frase de incentivo. e eu não sei se agora devo me encher de constrangimento ao devorar um virado à paulista porque passou a ser patrimônio histórico. por que não tombam o amor do jeito que é expresso nos filmes do kar wai? fico pensando numa pá de assuntos que me tiram o sono pra depois descobrir que exageraram um bocado na quantidade de suicidas devido ao crack da bolsa em 1929. bolsa de valores. taí uma coisa que, ao contrário do suicídio, eu nunca entendi.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
o homem de braços curtos pagou dez e noventa naquele fascículo em promoção. ele queria montar o navio bismarck com seu leme travado para bombordo e esperar pela royal navy. e comprou cola para madeira e tintas coloridas e uma pequena serra de mão. encheu a banheira e afogou o pato amarelo de borracha até as bolhas cessarem. a água estava um pouco quente, então ele teria tempo de procurar a velha boina puída socada - e ser então o último boy scout - em algum armário alto demais. numa garrafa pet de setecentos e cinquenta mililitros deixaria um bilhete para ela com palavras que nunca havia dito.
domingo, 2 de outubro de 2011
você concatena palavras como se fizessem sentido. não é assim, meu bem. há toda uma coisa de acepção, etimologia, origem e juntá-las assim, só porque existe concordância verbal, chega a ser ofensivo. você costumava rir da minha inabilidade em montar bonecas matrioska e na verdade eu estava pouco me lixando pra rússia, pra antiga união das repúblicas socialistas soviéticas, pra são petersburgo ou pra qualquer lugar em que as pessoas estivessem falando uma língua estranha e fazendo algo diferente de matar o tempo sem você, como eu fazia. olha, eu te amo, e tua ausência é a coisa mais presente que eu tenho. joguei todos os dicionários na lixeira de recicláveis e me diverti por alguns minutos tentando encaixar retângulos de mil páginas em cilindros vermelhos. tenho que subir meio lance de escadas até lá, você sabe, e eu contei oito degraus. lá pelo quarto achei que acreditaria em você, mas existem superstições que simplesmente não funcionam.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
é que tem coisa que me derruba e eu não tô falando de um uppercut do cassius clay nem de tropeçar em pés descalços largados no meio da calçada. é como se o placar da minha pressão exibisse o escore 9 X 5 nos trinta e dois segundos finais do campeonato. tem uma cama adaptada aqui para acomodar meu amor deficiente que ainda não aprendeu a ler em braile.
sábado, 24 de setembro de 2011
se enfiasse, então, a cabeça no forno, assim que retirasse a grade do meio, deixaria um bilhete no bolso traseiro. mas as coisas andavam um tanto enferrujadas por lá e movê-las demandaria um pouco mais de paciência (já não tinha). fora que a porta da cozinha era daquele estilo faroeste, uma ideia dela para tornar tudo mais dinâmico (ela, que dormia nos filmes do sergio leone). então ele tirou o enorme frango do congelador, ligou o gás e sentiu uma pontada de prazer quando a primeira gota de gordura se desfez na chapa quente.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
pegou uma fita métrica e mediu o comprimento e a largura da sala. depois sua própria altura. pensou no capitão américa com aquela enorme estrela no peito e numa garota debruçada na janela. escreveu uma nota de óbito numa embalagem de pão e tentou montar um anagrama para carboidratos. alimentou a planta carnívora com restos de um coração transplantado. a orelha de holyfield o impressionava muito mais que a de van gogh e ele soltou uma gargalhada que se confundiu com o frouxo ruído do velho ventilador.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
engarrafamento monstro, saca? eu louca pra te ver, tudo regularizado, respeitando rodízio de placas e ouvindo CBN. às vezes eu tenho essa vontade de saber o que anda acontecendo no mundo pra discutir com você. ou pelo menos fingir que eu estou por dentro das coisas pra você fazer aquela cara de quem se surpreende comigo. que diferença faz, não é? a gente sempre manda o mundo às favas e escuta muddy waters. mannish boy. traduzi a primeira estrofe assim de sopetão. ficou meio esquisita com meu inglês científico demais. mas eu não fico mais cheia de dedos com nada. nesse exato momento eu tô sentando a mão na buzina para que as coisas se movam e eu te conte em primeira mão sobre o incêndio em singapura. é longe pacas, eu sei. mas quer saber? o mundo cabe direitinho naquele velho globo que você tem na sua sala. abri o vidro, a moça me deu um folheto de apartamento que eu transformei num bi-motor. ele deve chegar aí antes de mim. abra com cuidado, tenho a impressão de ter despachado meu coração junto.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
aprendi um bocado preenchendo palavras cruzadas de jornais. chamo de destino quando carro de boi encontra letargia num cruzamento vertical e cá entre nós isso não significa nada. isso de destino, quero dizer. ninguém colou um treco na minha testa e disse mantenha-se em tua casta e tudo ficará bem. aliás nunca ninguém me disse nada mais importante que 6-horizontal-dois sintomas da alergia aguda alimentar. eu saio revirando tudo quanto é dicionário e consultando sites privilegiados por search engine optimization. dopamina. é assim que eu tô levando a coisa. todos os dias.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
não desisto dos meus vícios. nem daquele box de filmes do stallone que ainda está lacrado ao lado da pilha de louça suja. a vida deixou de ser biodegradável faz tempo, baby. enchi o chão de tachinhas porque o que aqueles malucos lá da índia fazem ainda me parece um truque tosco. os armários em cima da nossa antiga cama estão emperrados. dobradiças de metal. o panaca que inventou isso não pensou sequer na possibilidade de que as coisas enferrujam, que no ar que ele respira há um componente responsável por oxidação. ele, na sua pressa de ser eternizado pela porra de uma patente, sequer pensou que no armário em cima da nossa antiga cama há um isopor com doses cavalares do amor que a gente estocou. dessa vez eu estou realmente com medo que estrague tudo. quanto tempo duram coisas imersas em nitrogênio líquido, você sabe?
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
“Rédea”, digo. Levanto a rédea na janela e olho para ela sob a luz. Não é uma peça decorativa, é só uma rédea velha de couro escuro. Não sei grande coisa sobre rédeas. Mas sei que uma parte encaixa na boca. Essa parte é chamada de freio. É feita de aço. As tiras dão a volta pela cabeça do cavalo e sobem até onde ficam seguras entre os dedos do cavaleiro, no pescoço do animal. O cavaleiro puxa as rédeas para um lado e para o outro, e o cavalo vira. É simples. O freio é pesado e frio. Se a gente tivesse de usar um negócio desse enfiado nos dentes, acho que ia entender rapidinho. Quando sentisse puxar, a gente ia saber que estava na hora. A gente ia saber que estava indo para algum lugar.
A rédea. Raymond Carver. Trecho final.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
você sabia, né, meu bem? eu coloquei aquela minha velha capa do mandrake e vomitei meia-dúzia de profecias enquanto girava a cartola com a mão esquerda. adquiri habilidades ambidestras, te contei? acabei batendo boca com um daqueles peruanos que vendem cd´s com versões horríveis de simon e garfunkel só porque tentei convencê-lo a montar um negócio de bungee jump no viaduto beneficência portuguesa. ele me disse que era do chile ou coisa assim e que eu tinha cara de agente da imigração. você me conhece, isso de colocar cara em mim me tira do sério. você precisava ver, juntou uma multidão, era horário de pico, cheio de gente afoita pra pegar o metrô e voltar pra casa. na hora que a coisa ficou feia de verdade eu fui embora. não vou mentir, me deu um certo pânico e quase senti um batalhão atrás de mim. mas eu nem olhei pra trás. subi os dois quarteirões até a rua de casa e bem na esquina dei um duplo mortal caindo em parada de mão. habilidades ambidestras deixam qualquer lição de vida no chinelo.
sábado, 20 de agosto de 2011
faltavam poucos minutos para o início do noticiário e o ar estava úmido demais. ela desceu as escadas se apoiando no corrimão, se aproximou dele e disse, estou com um gosto estranho na boca. ele coçou o queixo, aquela loção pós-barba era de péssima qualidade. o puto do cachorro abanava o rabo para a parede vazia e ela explicou, ele vê coisas. foi então que o âncora anunciou ataques incendiários em londres e ele sentiu uma gota de suor escorrer pelo rosto. saía bem do meio da testa.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
E se eu realmente me importasse com o que você me diria agora, eu traduziria suas palavras como a fácil lição de encarar um recomeço de minha vida. Eu sei, você não me falou nada. Você simplesmente não se importa com aquilo que orbita ao redor de planetas outros que não seu umbigo. Sua trajetória é rasa e previsível. Como um estúpido recomeço. Mas eu não me importo com você nem com sua ideia rasa e previsível de que tudo está de acordo com o que lhe foi padronizado como conceito de adaptação pelos seus ancestrais e seus autores de cabeceira. E se coubesse a você a permissão para que eu discorresse agora sobre o que eu chamei antes de minha vida eu recusaria. Mas não cabe. Da mesma forma que não cabe a mim recomeçar o que nunca começou. Você não é nada mais que um daqueles amaldiçoados quadros de crianças que choram. Se te viram de ponta cabeça, se te invertem num espelho, se te inclinam poucos graus para a direita ou para a esquerda, você vai ver que está sendo devorado por um impiedoso e grotesco monstro, enforcado pelas mãos da sua mãe ou aliciado por seu socialmente exemplar vizinho. E tudo que cresce, porque tá fora do seu controle, são suas unhas e seu cabelo.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
comprei um tanque de propano e meio quilo de pólvora numa das filiais daquela megastore de materiais de construção. qualquer site liberado pelo AVAST ensina a fabricar bombas caseiras e qualquer romance meia boca acaba com essa palhaçada de amor. a coisa por aqui está assim, num enorme painel de cortiça estou pregando todos os meus planos (te agradeço por ter levado aquele quadro horroroso. eu o cobria com um lençol quando você saía) e atualizando as etapas com aquela BIC quatro cores. O verde vive falhando, mas não encare isso como um obstáculo. eu escrevo em vermelho e uso um asterisco que deixa bem claro, isso é verde. eu venho fazendo isso o tempo todo, desde que recuperei a capacidade de discernimento que você me tirou. um dia você irá acordar com uma bomba algemada no seu tornozelo. a bomba que eu construí pra você. fique tranquilo, você só vai ter a sensação de que o despertador tocou antes da hora.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Há garotas que sabem dar o melhor de si, que se permitem trazer uma sacola de papel com um verdadeiro tesouro: vodca decente, pão francês, cigarros e balas de hortelã, e também comprimidos pra ressaca. Elas sabem que você é um prisioneiro e não um paspalho que se faz passar por artista, e se não sabem, pelo menos fingem com graça.
Garotas que ajudam a enxotar o cara do aluguel, que pegam a correspondência e jogam fora sem abrir porque são espertas, sabem que gente como você não recebe cheques de fundações, revistas nem cartões de Natal, que o mundo lá fora só quer encher o seu saco. Elas não dizem que você é infiel, dizem que você se vira como pode
Garotas que coçam as suas costas e não fazem perguntas inúteis. Garotas que qualquer um, menos você poderia amar e com isso estragar. Elas não precisam de um marido ciumento, não querem o yuppie amável que rala a bunda para ganhar umas migalhas. Elas se entregam ao prisioneiro, ao cara que bate a porta e apaga este mundo nojento com seus poetas sob medida e suas putinhas honoráveis. Garotas capazes de limpar persianas sem fazer comentários, que sabem quando é hora de ir embora e que jamais levarão uma estúpida flor ao seu túmulo.
Brindo a elas.
Soa como uma velha canção - Efraim Medina Reyes
terça-feira, 9 de agosto de 2011
eu vou legendar um filme inteiro em alemão pra você não entender. colocarei tremas sob as letras erradas e inverterei as falas, vou contar a história do final pro começo com um pequeno intervalo forçado aos 34 minutos que tornará as coisas ainda mais inverossímeis. um sutil curto-circuito e a tecla stop não funciona mais. eu não levo pilhas oxidadas a nenhum centro de coleta. continuam todas aqui, espalhadas pelas gavetas num sistema aleatório de distribuição. Ende.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
você faz um gargarejo com listerine para dissolver um bolo de algas preso na garganta e aprende que girino em inglês é tadpole. há uma gambiarra indetectável no encanamento do seu banheiro e você sabe disso pelo sorriso sarcástico do antigo zelador que você observa pela pequena angular do olho mágico. ele se casou pela segunda vez e abandonou o par de gêmeos porque não tinha como distingui-los. o aspirador incrível que você parcelou no cartão de crédito não alcança os cantos senoidais projetados pelo estagiário do niemeyer e suas plantas artificiais andam estranhamente atraindo insetos. o sistema de alarme é precário mas você tem a impressão de que ele vai disparar a qualquer momento. você tem bem mais que doze problemas bucais.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
eu costumava ouvir neil young e ler caio fernando abreu. coisas como "eu constantemente sinto saudade das coisas que perco mas não as quero de volta. já doeu uma vez", assim que você partia. aí eu me arriscava nos horóscopos inventando ascendentes que eu não tinha. e sempre dizem, tem que ver a lua também. a lua. eu não me importava muito com aquela cara de cartão postal da lua. a lua pra mim sempre serviu para iludir cachorro desavisado ou mote para falarem do outro neil, o armstrong. e eu até falaria dele, pro tempo sem você passar. eu tocaria a campainha da vizinha do 63 com um pretexto qualquer. um abaixo-assinado solicitando a instalação de uma antena parabólica capaz de captar a transmissão de uma rádio-novela inédita de h. g. wells onde recuperam, no penúltimo capítulo, as últimas cartas que trocamos.
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