porque, presta atenção, a única pergunta que só tem uma resposta é "você está me escutando"? no mais, tudo está sujeito a desabamentos gramaticais classificados precocemente como detentores de sentido. é isso que a gente faz. a gente se instala no quadrinho do meio da tirinha do jornal e começa. começa sabe-se lá o quê, né? são dois dedos pro início do parágrafo e a coisa toda passa a ser anatômica. e eu nunca tive a menor condição de resistir a você. eu chego até a implorar em segredo para que você adiante aquele seu gesto inconsequente que me faz lembrar de buster keaton. numa inevitável comparação você me diz que prefere chaplin. aí a gente começa a discorrer até o momento x (olha só, chegamos quase ao final do alfabeto) em que perdemos todas as referências. bem, nunca fizemos questão de mantê-las. viramos embrulho de peixe ao lado do horóscopo picareta e o ascendente do funcionário da gráfica é ditador demais para que ele sequer pense na hipótese de sabotar nossa republicação. sabe como é, ele acredita nessas coisas. eu posso quase jurar que ele anda torcendo pela gente.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
eu era aquela garota isolada na hora do recreio. tinha um tubo de drops que se chamava paquera e um jingle idiota que grudava na cabeça. então a garota isolada na hora do recreio brincava de torre de hanói até tirar o drops vermelho e mantinha um olhar de comiseração treinado exaustivamente na noite anterior. usando o mesmo espelho no qual ela calculava a desproporção áurea de seu rosto com um paquímetro roubado. havia os garotos jogando truco e apostando moedas de baconzitos até soar o segundo sinal. aí vinha a geografia e uma professora que se excitava espetando com um alfinete o sul do sudão no mapa mundi. e tinha todo aquele caminho pra estação paraíso quando o sol já estava forte demais para seus, meus, olhos desacostumados.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
"vamos tornar as coisas mais aritméticas". ela tem essa mania de colar recados indecifráveis na geladeira e arrastar os chinelos enquanto anda. de largar o fio dental mentolado em cima da torneira. "algo não me caiu bem". ela espera que eu diga alguma coisa que ela não vai ouvir. então ela alimenta os peixes e mastiga as beiradas da unha até sangrarem. me pede um band-aid, joga a embalagem vazia pela janela e observa o que ela chama de a cura suicida. os classificados que ela rasga destacam o leilão de uma cobertura duplex com vista para um lago que não existe mais.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
e embora minha lanterna tenha um alcance ridículo eu me meto em becos atrás de você. eu chego até a jogar uma pedra no chão e brincar de amarelinha como se transitar entre o céu e o inferno fosse mera questão do acaso ou da minha falta de pontaria. eu me meto a ser a última girl scout que exagerou na quantidade de alvejante e fingiu surpresa ao retirar da lavadora um bocado de peças manchadas. você consegue perceber que há uma espécie de subversão nisso? quase tão dolorida quanto o último toque que você deu na minha mão antes da luz da minha lanterna de alcance ridículo se esvair de vez.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
é como uma assustadora cantiga de roda que te alerta para não pisar em poças que escondem fios desencapados. ou a merda de um musical da broadway que está em cartaz há mais de quarenta anos só porque você ainda não assistiu. tenho alimentado os ratos com teias de aranhas ruminadas apreendidas num depósito clandestino e me divirto diante da impossibilidade das múmias cortarem os próprios pulsos. meus joelhos não suportam outra oração mas eu ainda posso te salvar jogando uma rede de pesca. é só você não se afastar muito. os malditos remos me fazem navegar em círculos e eu acabo ficando enjoada.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
A RAIVA - Mário Bortolotto
a raiva é implacável. me arrancou da cama e me jogou contra a parede. me fez rolar escada abaixo e me atirou rosas, granadas e carrinhos de bebê. a raiva me quer na rua, por isso me fez ouvir torch songs nos bares prediletos e tocou fogo na minha casa. a raiva esticou minha perna e me fez pressionar o acelerador. me fez derrubar semáforos e me jogou sobre um leito de hospital. a raiva me internou e ocultou meus diagnósticos. a raiva matou meu melhor amigo numa igreja às 6 da tarde num sábado de sol, a raiva tava de collant preto com uma Uzi numa mão e arroz na outra. a raiva é irônica e destrincha perus na noite de natal. a raiva redigiu meu epitáfio com uma frase de efeito. a raiva é cuidadosa. por isso me jogou na cadeia, me espancou e me fez confessar a cor das cortinas da casa dela. a raiva sabe como fazer as coisas. me serviu ópio e haxixe e disse que estava tudo bem. a raiva toca notas dissonantes e anda sempre de preto. a raiva me chamou de Bob Sands e depois gargalhou sadicamente. assim ela é. a raiva me fez dormir em pensões escrotas. a raiva respira pela boca e anda pelo corredor enquanto os anjos dormem. a raiva sabe o momento certo de te apertar o pescoço. a raiva é paciente e sincera. a raiva ri da minha cara. a raiva faz negócios com mercadores europeus. a raiva importa armas químicas e anda com cachorros felpudos nas mesmas calçadas que você. a raiva jogou boliche com meu amigo Charles, ela disse a ele que a diet coke é o sêmem do mal. a raiva é histérica e transforma banalidades em manchetes internacionais. a raiva me bateu com uma Magnum 357 no rosto. a raiva me quer vivo, por enquanto. a raiva decide o teu destino. a raiva escondeu os preservativos. a raiva fez um pacto de sangue com os burocratas das mesas envernizadas. a raiva mistura água com vinho e não quer os meninos nas portas das vernissages. a raiva não tem sexo. a raiva dorme sozinha e lê suplementos dominicais. a raiva perdeu o trem e ficou por aqui. a raiva é um espectro sobre colchoados controlando nossas vidas pelos aparelhos de tv. a raiva anda em sedãs vermelhos e recebe os caras pela porta dos fundos. a raiva me serviu leite e maionese e disse que era pro meu bem. a raiva é cheia de subterfúgios. a raiva me cortou a face com lâmina de barbear. a raiva fez a imagem se formar antes da minha retina. a raiva escreve da direita pra esquerda e de cima pra baixo e fala em cinco idiomas. a raiva dança sons africanos. a raiva vomitou no meu prato e quebrou os joelhos da minha mãe. a raiva tomou uma overdose e não morreu. a raiva é imortal. a raiva confundiu as teclas da minha máquina de escrever. a raiva me fez mendigar um litro de vinho no coração da cidade. a raiva corroeu meu fígado. a raiva fez meus amigos se voltarem contra mim. a raiva se vestiu de púrpura. a raiva é um vírus mortal. a raiva anda de cadeira de rodas. a raiva me abraçou e me beijou na boca. eu acreditei nas suas boas intenções. a raiva me levou pra cama e me entupiu de frisium. a raiva carrega ordens judiciais no bolso do paletó. raiva faz tudo em nome da lei. a raiva é onipotente e onipresente. a raiva sabe onde me escondo. a raiva estuprou minha garota numa banheira e depois a esfaqueou repetidas vezes. a raiva tem olhos vermelhos. a raiva tomou conta de mim. eu estou a caminho. é melhor limpar a área.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
hemorragia interna ou uma vala grande demais pra passar uma mini-van. ainda vejo desconhecidos pelos arredores e caçambas cheias de embalagens de pizza do domingo. ontem eu me surpreendi com minha empolgação naquele filme do schwarzenegger, mas porra, tinha o robert duvall com todo aquele paternalismo latente clonando uma pá de pessoas só pra não perdê-las. quanto a você, eu te colocaria numa casa de espelhos de um parque de diversões distante e pediria pra orson welles dirigir a cena toda. e faria infinitas cópias piratas pra espalhar pelas vitrines eletrônicas de tóquio. bem ao lado das oscilações do índice nasdaq. eu abriria mão de tudo isso se fosse capaz de te escrever um verso. mas enquanto não sou, baby, joga fora aquela camiseta. vamos começar de onde nunca paramos.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
sabe o que é mais engraçado? planetas estão pouco se lixando pra astrologia e casas mal assombradas sentem falta de seus fantasmas. na última vez que fui assaltada o cara falou passa tudo e eu entreguei um dossiê com tudo que eu sabia a seu respeito. agora tô aqui quebrando a cabeça com as peças que me sobraram pra te reconstruir num tabuleiro improvisado. e, na boa, saber que o cavalo só anda em L não adianta nada. e não há programa de computador que simule de maneira eficaz uma partida de GO. essa minha escassez de ferramentas pra te desvendar (de novo) é que me mata. daí eu fico aqui cutucando unhas encravadas com alicates não esterilizados e cronometrando o tempo exato de coagulação. tão cedo não vou poder calçar meus sapatos e ir atrás daquele cara pra te tomar de volta.
domingo, 27 de novembro de 2011
sou um fiasco com hai kais. então isso vai ser um borderline de verborragia aguda sujeita a interrupções de qualquer espécie. ou coisas para dizer quando a bateria do seu carro está arriada. não que eu tente efusivamente sair do lugar, mas a anti-máxima da autoajuda reza que é só você não poder pra querer. e justo hoje eu queria pegar o carro, usar uma mão no volante e a outra para afastar o cinto de segurança que dá navalhadas no meu pescoço. esse malabarismo amador todo que eu treino quando bate essa vontade insuportável te ver. porque aquele teu jeito de se sentar no banco do carona e apoiar os pés no parabrisa me dá a sensação de estar contrabandeando um legítimo rodin. e aí, baby, eu saio desafiando todos os radares na tentativa de sermos, os dois - eu deixei claro, interrupções de qualquer espécie - apreendidos por tempo indeterminado.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
rascunho. o bilhete que eu deixei grudado na geladeira ainda não está completo. note que há inclusive uma letra maiúscula. eu não uso letras maiúsculas a não ser quando a coisa é formal ou exige uma revisão urgente. escrever algo para você ainda me dá a sensação de estar escarrando um pedaço em desuso da minha anatomia. mas está lá, grudado naquele ímã do jack nicholson em o iluminado. bem na cena em que ele detona a porta com um machado e o resto é pânico. não perca seu tempo com isso, eu não premedito metáforas. o ímã com o número de emergência da comgás daria exatamente o mesmo efeito. as mesmas queimaduras causadas pelo amor que torra prematuramente sob formais 220 Volts.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
e sonny boy williamson se sentou com deus num lugar muito parecido com o tennessee e perguntou, mas que diabos foi isso? é assim. alguém pega uma picareta de quebrar gelo e arranca algo da nossa vida e diz, vai, segue aí agora. e eu olho para meus joelhos ralados da nossa última trepada sonhando ter sido sua última garota. veja bem, não é o pódio que me interessa. tampouco as medalhas de honra ao mérito. eu tenho espetadas em meu peito coisas muito mais fortes que essa babaquice toda de horóscopo e ascendentes não explica. e eu sinto uma saudade filha da puta do que a quiromante diagnosticou como linha dúbia no meu futuro. engraçado como nossa história é retórica, eu tô falando de picaretas de novo. tá um dia lindo hoje, você não acha?
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
deixemos as cretinices de lado, empilhadas como naipes mentirosos de baralhos de mágicos fajutos. há certa malícia em baixarmos um royal flush sobre a mesa, apostamos um bocado nisso com as mangas de nossas camisas puídas e um parco resto de dignidade. a luz que vaza pela cortina vedada com grampos de cabelo é só o mundo lá fora. "ainda com amor", escrevi no espelho daquele motel fuleiro cheio de lembranças remendadas com durepox.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
ontem eu deveria ter te falado, antes de desligar o telefone, que pra mim não existia amor sem barry manilow. explico. eu tinha doze anos e uma inabilidade crônica para a vida. aí eu estava num acampamento cheio daquelas coisas que me davam pânico. pessoas. e tinha aquele garoto. e tinha eu e uma quadra de volleyball que eu atravessei assim que ouvi we walked to the sea, just my father and me, and the dogs played around on the sand, com a certeza de ter encontrado o que chamavam de amor. me sentei ali, ao lado dele. mentira. entre nós havia um monte de bolas. eu contei todas. lá pela 17 (eu conto rápido) ele se levantou e foi conversar com outra garota. é. daquelas que fariam fácil o papel de cheerleader na sessão da tarde. ontem, antes de desligar o telefone, eu deveria ter te falado que essa foi minha primeira lembrança do amor. ter te falado que eu entendo cada garota que se encanta com você mas que não aceito a recíproca. eu ando muito egoísta. não deixei nem você saber que assim que desliguei o telefone eu, que me tornei um fiasco em esportes, coloquei mandy pra tocar.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
eu uso luvas cirúrgicas pra não amarelar os dedos com nicotina enquanto aquele cara comemora o primeiro lugar no vestibular de medicina subindo a brigadeiro luiz antônio numa bmw conversível branca. pouco antes de eu apagar bruce willys tem que resolver um enigma proposto num orelhão da sétima avenida. quando ia a santo ivo encontrei 1 homem com 7 mulheres, cada mulher com 7 sacos, cada saco com 7 gatos, cada gato com 7 gatinhos. homem, mulheres, gatos e gatinhos, quantos iam a santo ivo? é assim mesmo. a gente sai fazendo conta antes de pensar e corre o risco de em 30 segundos tudo ir pelos ares. da mesma maneira ridícula que a gente se ajoelha implorando o amor de alguém que vê a coisa toda como simulação de um exercício de tai chi chuan. na superfície (ou no fundo se você quiser, eu sempre cedo) dor é isso. é algo que se forma nas dobras do nosso corpo quando estamos em posições ridículas. em tempo. só uma pessoa foi a santo ivo.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
eles pararam na frente da vitrine e tocaram na mão um do outro sem querer. havia uma placa precisa-se de gerente. ele disse, talvez as coisas melhorem. ela não havia alimentado o gato ou os peixes ou fora a planta que ficara sem água. ele sonhou com charles bronson, alienígenas e uma formiga pequena demais que usava um nariz de palhaço. pensaram quase que simultaneamente num lote à venda, ela numa varanda, ele no preço do metro quadrado da grama. depois não pensaram em mais nada. ela entrou na loja, tirou o chapéu do mancebo, colocou na cabeça, pagou. quando ela saiu, ainda que lentamente, ele não a reconheceu. esperou algum tempo mas a chuva ficou forte demais e lá não vendiam galochas.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
nas manhãs que acordo sem você são dois jatos de aerolin. olha só, eu me empolgo com situações de desespero e fico tateando no escuro até encontrar a bombinha. derrubo um bocado de coisas e as pilhas ejetadas do controle remoto seguem em movimento browniano até a parede. e eu me lembro daquele diálogo de sunset boulevard, quando joe gillis diz a norma desmond, você é norma desmond. você costumava ser grande. ela responde, eu sou grande, as fotos é que são pequenas. aí joe fala, eu sabia que havia algo errado com elas. algum tradutor achou isso tudo divino demais e chamou de crepúsculo dos deuses. e eu ando com muita coisa na cabeça para me lembrar se crepúsculo é o nascer ou o pôr do sol. não, não é isso. a bem da verdade, eu não tenho aberto as cortinas desde que tive a sensação de você estar escondido atrás delas. você sabe, fator surpresa é um tema estudado à exaustão na psicoterapia.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
em exatos cinco anos você vai me escrever. você vai escolher uma mídia qualquer porque você nunca encontra as bics que rolam pra debaixo da estante. você vai dizer que nós violamos tudo que foi dito sobre magnetismo, de tales de mileto a maxwell. que devíamos ter ficado juntos e completado aquele álbum de figurinhas que dava prêmios. que aquela discussão ridícula na fila do caixa do walmart foi nosso melhor disfarce. acabamos nos assustando, não um com o outro, mas com nós mesmos e nossa incapacidade de perceber o timing correto para dizer eu te amo. hoje, sem você, eu me assusto com os barulhos estranhos da geladeira frost free e me pego ouvindo nelson gonçalves sentada no banquinho de madeira que eu comprei de um cara numa kombi. eu tive sorte. logo depois alguém gritou olha o rapa e ele arrancou com tudo.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
eu te avisei tantas vezes, odeio saramago, e você o embrulhou pra presente. eu coloquei um x em cada opção do pacote, mudou-se, endereço insuficiente, não existe o número indicado, falecido, desconhecido, recusado, ausente, não procurado, outros (especificar). nesse último ítem eu quis escrever que os aedes aegypti machos foram geneticamente modificados e morrem antes de atingir a idade de reprodução. o carteiro não achou isso lá muito plausível e eu argumentei, oras, e que plausibilidade existe em "O presente que demos ao primo maximiliano, quando do seu casamento, há quatro anos, sempre me pareceu indigno da sua linhagem e merecimentos, e agora que o temos aqui tão perto, em valladolid, como regente de espanha, por assim dizer à mão de semear, gostaria de lhe oferecer algo mais valioso, algo que desse nas vistas, a vós que vos parece, senhora, Uma custódia estaria bem, senhor, tenho observado que, talvez pela virtude conjunta do seu valor material com o seu significado espiritual, uma custódia é sempre bem acolhida pelo obsequiado, A nossa santa igreja não apreciaria tal liberalidade, ainda há de ter presentes em sua infalível memória as confessas simpatias do primo maximiliano pela reforma dos protestantes luteranos, luteranos ou calvinistas, nunca soube ao certo, Vade retro, satanás, nem em tal tinha pensado, exclamou a rainha, benzendo-se, amanhã terei de me confessar à primeira hora, Porquê amanhã em particular, senhora, se é vosso costume confessar-vos todos os dias, perguntou o rei, Pela nefanda ideia que o inimigo me pôs nas cordas da voz, olhai que ainda sinto a garganta queimada como se por ela tivesse roçado o bafo do inferno"? foi engraçado. ele tentou correr sem derrubar os cartões de natal.
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